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Lula e as esquerdas

Luís Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil Luís Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil

A ganância pessoal das lideranças e enganos ideológicos e doutrinários levaram o país à pior crise econômica e ética da história

Uma parte considerável do petismo perdeu o norte político com a divulgação das delações de Marcelo Odebrecht e do pai, Emílio. O pragmatismo no recebimento de dinheiro de caixa 2 para campanhas eleitorais era até tolerado, em nome do lema “os fins justificam os meios”. Mas a cada vez mais evidente ação para enriquecimento pessoal e de parentes, aí não. É demais. 

Emílio Odebrecht, como se estivesse em uma conversa de bar entre amigos, contou aos procuradores da Lava-Jato que o general Golbery do Couto e Silva, chefe do Gabinete Militar dos governos Geisel e Figueiredo, lhe descreveu Luís Inácio Lula da Silva como um bon vivant, que gosta da vida boa, toma sua cachacinha e não tem nada de esquerdista. A descrição irritou profundamente o petismo, que vê aí apenas uma tentativa de “desconstrução ideológica” de sua principal liderança. 

O fato é que um dos principais aliados e auxiliares de Lula, seu ex-secretário executivo na Presidência da República Gilberto Carvalho, já tinha dito coisa parecida. Ao fim do segundo mandato de Lula, Carvalho disse que estava muito enganado quem achava que Lula era comunista, ou até mesmo esquerdista: “Lula é um homem prático, ele quer é ver o pobre consumindo, comprando celular de última geração e televisão de plasma”. 

A descrição de Gilberto Carvalho é a de um sindicalista de resultados, denominação aplicada aos “novos pelegos” Antônio Rogério Magri, Luís Antônio Medeiros e Paulinho Pereira da Silva, inimigos dos “novos sindicalistas” da CUT e dos sindicatos do Grande ABC, que tinham em Lula sua viga mestra. Magri, Paulinho e Medeiros (um ex-comunista que estudou até economia em Moscou) obtiveram sim bons resultados: ficaram muito ricos. 

Medeiros, que se finge de trabalhador, sempre foi um homem de gostos sofisticados, que enriqueceu no “sindicalismo operário” e costumava disputar todos os anos a Maratona de Paris. 

Nos anos da ditadura militar, os sindicatos ligados aos partidos de esquerda importavam-se pouco com seus afiliados – queriam, na verdade, “derrubar a ditadura”; as campanhas salariais eram uma forma de estressar a luta de classes e mobilizar a classe trabalhadora.  

Os velhos sindicalistas, cujo símbolo maior era o pelego Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão, por seu turno, ofereciam assistência médica, serviços dentários, ajuda para retirada de documentos – e apoiavam o governo militar. A esquerda apontava o assistencialismo como forma de alienar e domesticar a classe operária. 

Seus líderes eram sindicalistas profissionais, embolsavam um salário alto para ocupar o cargo e, geralmente, eram corruptos, desfrutavam de uma grande intimidade com os líderes patronais.  Tinham horror da palavra “greve”. 

O Lula descrito por Emílio Odebrecht aproxima-se muito disso. Teria auxiliado empresas a impedir greves e desfrutava da confiança do governo militar e dos patrões.  A diferença estaria na retórica inflamada e na negociação dura por melhorias salariais, o que lhe garantia mais legitimidade e representatividade.  

Claro que Odebrecht exagerou nas tintas. Lula, com apoio da Igreja Católica e de intelectuais, fundou o PT, que se autoproclamou como “a esquerda moderna”, sem os velhos vícios e erros dos comunistas tradicionais, então encarnados no PCB e no PCdoB.   

PT incorporou várias tendências de esquerda

O PT incorporou logo mais de uma dezena de tendências de esquerda, de social democratas a trotskistas. Lula era seu fator de união. Lula chegou ao poder com o seu partido, mas não deu certo, e hoje tenta juntar os cacos e recolher as cinzas, em busca de um renascimento improvável. 

A ganância pessoal das lideranças e enganos ideológicos e doutrinários puseram fim à aventura e levaram o país à pior crise econômica e ética da história. O cheiro ruim foi sentido logo no começo, quando o obscuro Valdomiro Diniz, um auxiliar do então poderoso ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, foi gravado cobrando propina do bicheiro goiano Carlinhos Cachoeira. Foi demitido e não se soube mais dele. 

Dirceu costurou de início, em 2003, uma aliança com o PMDB, em nome da formação de uma maioria no Congresso Nacional. Lula vetou, mas em pouco tempo entregou-se ao pragmatismo e às práticas políticas mais abjetas da recém-conquistada democracia brasileira, levando-as a níveis nunca antes imaginados. É realmente chocante ouvir que dois ministros da Fazenda pediam dinheiro a empreiteiros – os guardiães das contas públicas! 

A sensação geral é de que a esquerda brasileira precisa se modernizar, assim como os campos liberal e social democrático. O modelo político que se iniciou com a redemocratização de 1985 está esgotado, e é necessária uma ampla reforma política e eleitoral.  Mas não com o atual Congresso, que não tem condições morais para tal.

 

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