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Mercado e IBGE não se acertam sobre vendas do comércio

Mercado e IBGE não se acertam sobre vendas do comércio

A alta de 1% no volume de vendas em abril, após quedas de 1,2% em março e de 0,4% em fevereiro, surpreendeu o mercado que esperava recuo em torno de 0,55%

Decididamente, os departamentos econômicos das principais instituições financeiras e as empresas de consultoria e institutos de pesquisas não estão falando a mesma língua que o Instituto Brasileiro de Economia e Estatística. O IBGE, principal órgão de pesquisas de preços, produção, vendas, emprego e renda do país, divulgou hoje o resultado das vendas de abril. A alta de 1% no volume de vendas, após quedas de 1,2% em março e de 0,4% em fevereiro, surpreendeu o mercado que esperava recuo em torno de 0,55%, segundo levantamento da Reuters (o Bradesco esperava queda de 0,70%). Na comparação com abril de 2016, houve crescimento de 1,9% (o mercado esperava queda de 1,30%), que interrompe 24 meses de queda.

Antes que se ponha em dúvida a exatidão das pesquisas do IBGE, como aconteceu em janeiro, quando a ampliação do universo de pesquisa mostrou um resultado final bem diverso da amostra da primeira prévia, a gerente de Análise de Dados da Pesquisa Mensal de Comércio, do Instituto, Isabella Nunes destacou que o resultado de abril foi muito influenciado pelo impacto positivo da Páscoa sobre as vendas dos mercados, supermercados e hipermercados, sobretudo ovos, barras e bombons de chocolate, além de bacalhau, cebola, tomate, azeite, ovos e pescado.

Ela sublinhou, porém, que o avanço e a melhora, após duas baixas seguidas, “não elimina a queda passada, permanecendo o varejo em situação estável e em um patamar distante do pico histórico de crescimento de 9,9%, registrado em novembro de 2014”. Um estudo do Departamento Econômico do Bradesco vai mais além e aponta que até dezembro do ano passado a queda do varejo nacional comparada a janeiro de 2014 atingira a faixa de 22%.

É possível que o crescimento do volume de vendas dos supermercados tenha relação direta com a forte queda dos preços dos alimentos (feijão, arroz, óleo, carnes, frangos e laticínios) em função da supersafra. Os preços dos alimentos chegaram a acumular altas superiores a 15% ao ano em meados do ano passado. Agora, caíram para menos de 2,50%. Por isso, Bradesco e Itaú preveem que o IPCA em 12 meses cairá abaixo de 3% no período junho a agosto, abrindo espaço para maior queda de juros.

Essa folga nos orçamentos pode começar a melhorar o perfil de consumo das famílias – aliviadas também nas tarifas públicas. Entretanto, os indicadores das vendas de produtos de maior valor (eletroeletrônicos, eletrodomésticos e móveis, além de motos e automóveis, que dependem de crédito) ainda apresentam índices bem negativos e erráticos.

Como amanhã o IBGE apresenta o resultado da pesquisa sobre o mercado de serviços do mês de abril – e o segmento (incorporando o comércio e as atividades financeiras e de seguros) é o de maior peso na formação do PIB (73,3% em 2016) - é muito importante que os números do IBGE e das instituições financeiras convirjam para a mesma direção. Neste ano estão se comportando como birutas de aeroporto, mudando de direção ao sabor da menor aragem.

A questão é séria, pois envolve a formação de expectativas – hoje um dos componentes relevantes no comportamento da economia, por sua capacidade de instilar confiança nos agentes econômicos e nos consumidores. Como o país em crise política poderia ter na recuperação econômica uma âncora importante (e assim animar os defensores do avanço das reformas econômicas), a formação de expectativas pode servir a toda a sorte de manipulações.

No final de 2016, o governo divulgou que esperava crescimento de 1.6% no PIB de 2017 e de 2,5% no de 2018. O Itaú ‘comprou’ a ideia e foi mais além: previu crescimento de 1% este ano e de 4% em 2018. O Bradesco foi mais cauteloso e esperava crescimento de 0,5% em 2017 e de 2,5% em 2018. Depois, o Bradesco reduziu as apostas para 0,3% este ano e 2,3% em 2018 (semana passada, em decorrência do agravamento da crise política, que tende a reduzir o ritmo e a intensidade das reformas econômicas reduziu para 0% a projeção para 2017 e para 2% em 2018). O Itaú fez a revisão mais drástica ainda: reviu para apenas 0,3% a taxa de crescimento do PIB este ano e cortou de 4% para 2,7% a taxa de 2108.

O descompasso nas leituras de curto prazo para as projeções do PIB são ainda mais gritantes. O Bradesco previu ontem (antes do resultado do comércio de abril), que o PIB do 2º trimestre teria queda de 0,5% influenciada pela queda do comércio e dos serviços em abril e maio. Para abril, previa queda de 0,1% no volume de serviços (o que vai ser medido amanhã). As estatísticas de produção e vendas de automóveis estão erráticas e surpreendentes, pois, como identificou bem o jornal Valor Econômico na edição de ontem, os fazendeiros e famílias dos estados agrícolas (onde houve grande incremento da renda com a supersafra ainda em curso) estão tendendo a fazer compras via internet e não no comércio tradicional (comumente pesquisado pelo IBGE e pelos departamentos econômicos dos bancos). O Itaú, por exemplo, prevê agora queda de 0,8% no PIB do 2º trimestre (alta de 0,5% no 3º e expansão de 1,8% no 4º para fechar o ano com crescimento de 0,3%). Com o resultado positivo de abril, a LCA Consultores já acredita que o comércio vai fechar 2017 com resultado positivo de 0,5%. O Bradesco estima queda de 0,1% no consumo privado (basicamente comércio e serviços).

Todos torcem para que a economia reaja e entre nos trilhos, para reverter o quadro de perda de empregos e de renda que afetou fortemente a capacidade de consumo das famílias. Antes de tudo, é preciso que as bússolas econômicas acertem o seu Norte...

 

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