Menu

O dilema da economia: olhar o para-brisa ou o retrovisor

O dilema da economia: olhar o para-brisa ou o retrovisor

Apesar do avanço dos segmentos de serviços e do comércio, o Departamento Econômico do Bradesco manteve a expectativa de queda do PIB neste 2º trimestre

O interregno da crise política deflagrada em 17 de maio, com a divulgação das interpretações da PGR sobre as conversas gravadas entre o empresário Joesley Batista e o presidente Michel Temer, em 7 de março, criou uma situação paradoxal na economia: com as nuvens negras que caíram sobre o horizonte político, os agentes econômicos perderam a confiabilidade sobre o destino futuro justamente no momento em que a economia parecia reagir, após quase 30 meses descendo ladeira abaixo. O dilema atual do empresário é saber se ‘dirige’ olhando o para-brisa ou o retrovisor.

Em economia sempre se deve olhar para a frente, levando em conta as situações passadas e as ocorrências sazonais. No caso presente, quando não se tem a devida confiança de que a crise política será superada pelo governo Temer e que o presidente terá cacife para retomar a votação das reformas nas condições anteriores a 17 de maio, a situação é ainda mais complexa. Se há pouca visibilidade à frente, qual o horizonte passado que se deve levar em conta olhando o retrovisor: o de curto prazo ou o de longo prazo.

Olhando apenas o 1º trimestre pelo retrovisor, a situação parecia animadora – crescimento de 1% no PIB e inflação em franco declínio graças à supersafra que liderou a recuperação da economia. Mas veio abril e maio e na metade de junho, as apostas se dividem sobre o que será este 2º trimestre e mais ainda o desempenho do Produto Interno Bruto até dezembro. Antes dos resultados positivos (ambos de 1%) no volume de vendas do comércio e do setor de serviços em abril (que o IBGE divulgou esta semana), o mercado previa retração de 0,4% a 0,5% no PIB do 2º trimestre. Depois, o Bradesco reviu a projeção de queda para 0,3%, mas estimou em 0% o crescimento para 2017. O Itaú recuou a taxa de crescimento do ano de 1% para 0,3%.

Hoje, porém, o Banco Central divulgou o resultado do IBC-Br de abril (uma espécie de antecipação do PIB), com alta de 0,28% em relação a março, descontado os efeitos sazonais, puxada pela melhora dos segmentos de varejo e serviços. Olhando mais fundo pelo retrovisor, a queda acumulada nos últimos 12 meses ainda é alta: -2,66%. A questão do passado seria claramente descartada se houvesse segurança no horizonte presente e futuro.

Entretanto, a crise política de maio criou um fosso na economia brasileira semelhante ao impacto da crise do subprime, de agosto de 2008, nos EUA, para a economia mundial. Note-se que seus efeitos só parecem passar agora, quando o Fed sobe em um ponto percentual, da faixa de 0% a 0,25% ao ano para a faixa de 1% a 1,25% ao ano a taxa dos Fed Funds (os fundos overnight aos bancos do país).

Apesar do avanço dos segmentos de serviços e do comércio, o Departamento Econômico do Bradesco manteve a expectativa de queda do PIB neste 2º trimestre. Na leitura do setor de serviços em abril, o banco assinala que decompondo-se o avanço de 1% (após quase de 2,6% em março) no volume de serviços prestados às famílias e empresas, segundo a pesquisa do IBGE, destaca-se a estabilidade nos gastos das famílias, enquanto os serviços de transportes cresciam 1% e as atividades de tecnologia da informação evoluíam 2%. Nos quatro primeiros meses do ano o setor encolheu 4,9%. Vale lembrar que ele é o segmento de maior peso no PIB (73,3%), incluindo as atividades do setor financeiro e de seguros, não mensurados pelo IBGE nessa pesquisa.

Para medir a ‘temperatura’ dos segmentos de comércio e serviços o IBGE utiliza dois ‘termômetros’: volume de vendas e vendas nominais. Como o setor de serviços tem muitos preços indexados à inflação passada, usar o deflator da inflação também fica complicado neste momento de fortes variações dentro do IPCA. Se o índice em 12 meses caiu para 3,70% em maio e tende a cair para 3,50% em junho, os segmentos de serviços ainda rodam acima de 6%. A médio prazo, passado o efeito agudo da indexação de 2015-16 (quando houve forte impacto do tarifaço dos preços públicos, que a ex-presidente Dilma congelou nos anos de 2013 e 2014, com nítidas intenções eleitorais) os diversos componentes do IPCA tendem a caminhar juntos. O ano de 2017 é especialmente benigno nos preços dos alimentos e bebidas (principal item das despesas familiares) que agora sobem na faixa anual de 2,7%, contra 17% há dois anos e 15% há um ano. A falta de precisão sobre os indicadores de um segmento que responde por quase ¾ da economia brasileira é um complicador a mais em 2017. O Bradesco frisa que apesar de esperar “uma retomada bastante gradual da atividade do setor, os resultados tendem a ser mais voláteis nessa fase de recuperação, ainda apontando para certa estabilização do consumo das famílias no curto prazo”.

Por tudo isso, é alentador que o Banco Central, que há 15 dias manifestou, na reunião do Comitê de Política Monetária, a sua incapacidade de prever o futuro próximo da economia diante das incertezas na política, esteja agora inclinado a aceitar, no âmbito do Conselho Monetário Nacional - onde ocupa um dos três assentos ao lado do Ministro da Fazenda e do Ministro do Planejamento – a baixar a meta de inflação para 2019 para 4,25% - uma redução em relação aos 4,50% que vigorava desde junho de 2003. Houve, no período apenas ajustes nas margens de flutuação, para cima ou para baixo – a margem era de 2% e caiu para 1,50 p.p. em junho de 2015.

Notícias positivas são sempre alentadoras na economia. Veja-se o caso da geração de empregos na indústria no estado de São Paulo: houve queda de 3,0 mil postos de trabalho em maio, de acordo com os dados divulgados pelo sistema Fiesp/Ciesp. Mas houve contratações líquidas no setor de açúcar e álcool, reduzindo para 0,3% a queda no nível de emprego, descontados os efeitos sazonais. Assim, o Bradesco reduziu um pouco – de 25 mil para 20 mil – a projeção para a criação líquida de vagas formais em maio, mês de sazonalidade favorável. De qualquer forma, o banco acredita que o mercado de trabalho se estabilizará gradualmente ao longo do ano, ajustando-se, de forma defasada, à melhora da atividade.

 

Deixe um comentário

Certifique-se de preencher os campos indicados com (*). Não é permitido código HTML.

voltar ao topo
Info for bonus Review William Hill here.

Finanças

TI

Canais

Executivos Financeiros

EF nas Redes