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Em meio à recessão, Brasil entra em deflação

Em meio à recessão, Brasil entra em deflação

A queda de preços foi puxada, mais uma vez pelos alimentos, e, agora, pelos preços da energia

Castigado pela maior recessão de sua história, que deprimiu o consumo nos últimos 30 meses, o Brasil registrou em junho a sua maior deflação. O IPCA, que mede as despesas das famílias com renda até 40 salários mínimos, teve queda de 0,23% no mês passado, no menor índice desde os -0,51% de agosto de 1998. A queda de preços foi puxada, mais uma vez pelos alimentos, e, agora, pelos preços da energia (elétrica e da gasolina) que produziram taxas negativas nos três itens que respondem por quase 60% das despesas das famílias, com quedas de 0,50% para Alimentos e Bebidas e, 0,77% para Habitação e de 0,52% para Transportes.

No semestre a inflação acumulada foi de 1,18% (a mais baixa inflação desde 1994, na era do Real), com queda substancial frente aos 4,42% dos primeiros seis meses de 2016. Em 12 meses a taxa caiu dos 3,60% de maio para 3%, a menor inflação anual desde 2006. No INPC, que mede as despesas das famílias com renda até cinco salários mínimos e onde o peso da Alimentação é maior, a baixa de preços causada pela supersafra de grãos teve impacto ainda maior, com queda de 0,30% em maio e alta de apenas 2,56% em 12 meses. O peso dos alimentos fez Recife ter a maior inflação no IPCA (4,75%), seguido por Fortaleza (+4,31%). Já Goiânia, no centro da grande produção agrícola do Centro-Oeste, teve a menor: +1,74%.

O fato seria motivo para amplas comemorações se não embutisse a preocupação de que a derrubada de preços – mais visível no atacado – pudesse encobrir um princípio de deflação. Hoje, a Fundação Getúlio Vargas também divulgou o Índice Geral de Preços, no conceito de Disponibilidade Interna (só preços domésticos), que registrou queda de 0,96% em junho, superando as projeções do Bradesco [que acertou a queda de 0,23% no IPCA], de -0,85%) e do mercado (-0,70%). O Bradesco chama a atenção para o fato de ser o 2º IGP-DI seguido com deflação (-0,51% em maio).

O IGP-DI e o IGP-M da FGV são índices compostos por preços no atacado (o IPA responde por 60% do índice final), pelo IPC (preços ao consumidor a nível nacional pesa 30%) e pelo Índice Nacional da Construção Civil, que pesa 10% e engloba mão de obra e preços de materiais. A baixa foi puxada pela queda ainda mais acentuada dos preços agrícolas no atacado – de -0,72% em maio, para -2,88% em junho. Mas o IPA industrial recuou 1,06% em junho (após taxa negativa de 1,24% na leitura anterior), refletindo principalmente a retração do preço do minério de ferro e do diesel.

A queda no atacado teve reflexo no varejo com o IPC caindo 0,32% após alta de 0,52% em maio. Por fim, o INCC acelerou: alta de 0,63% em maio e 0,93% em junho. Mas a influência veio da mão de obra que tem reajustes escalonados por regiões ao longo do ano. Os materiais de construção subiram só 0,01% no mês. Em 12 meses o IGP-DI acumula deflação de 1,51%, contra alta de 1,06% em maio. O Bradesco projeta deflação de 0,5% para o IGP-M de julho, a ser divulgado na próxima semana.

Para o Departamento Econômico do banco, “esse comportamento favorável dos preços no atacado, em especial dos produtos agropecuários, sustenta a manutenção da tendência desinflacionária ao consumidor esperada para os próximos meses”. O Banco prevê que o IPCA volte a subir em 12 meses, fechando a 3,4% em dezembro, devido a reajustes pontuais (preços administrados).

Alimentos X preços indexados

O IBGE apresentou interessantes comparações de preços. Pela primeira na história recente, o País apresenta variação negativa de preços de alimentos no domicílio no acumulado de 12 meses (-0,56%). Das 13 regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE, só três tiveram alta dos alimentos consumidos em casa nos últimos 12 meses (Fortaleza +3,38%, Recife + 1,49% e Porto Alegre +0,07%). As cidades com maior queda foram: Curitiba (-3,06%), seguido por Goiânia (-2,94%) e Belo Horizonte (-2,69%). No Rio de Janeiro houve baixa de 0,14% e de -0,24% em São Paulo.

A queda nos últimos 12 meses da alimentação em casa foi impressionante: em junho do ano passado, os preços subiam 8,79% em 12 meses. Em junho de 2017 registram queda inédita de 1,08% em 12 meses. Mas a alimentação fora de casa não acompanhou a curva dos preços (por influência dos custos incidentes sobre restaurantes, bares e lanchonetes, como aluguéis, taxas e mão de obra): em junho no ano passado a alta acumulada era de 4,70%, caindo para +1,99% em junho último.

Outra comparação interessante é com a evolução dos preços administrados, que foram os grandes vilões da inflação de 2015. Na média, para um IPCA de 10,67% naquele ano, os preços administrados (congelados eleitoralmente em 2013 e 2014) subiram 18,08%, liderados pela alta de 54% da energia elétrica. Agora, a energia é um dos itens que aliviam o bolso do consumidor. Mas nova mudança no marco regulatório, com a possível venda de usinas da Eletrobrás para grupos privados pode gerar nova alta para 2018 (a estimativa é na faixa de 7%). Em compensação, o Tesouro arrecadaria R$ 53 bilhões para cobrir o déficit público e encerraria um longo imbróglio de subsídios cruzados entre estatais (Petrobras e Eletrobrás).

Os preços administrados subiam 8,55% nos 12 meses encerrados em julho de 2016, quando o IPCA acumulava alta de 8,74%. Agora, a alta acumulada dos preços administrados baixou para 3,30%, contra alta de 3% no IPCA. Na métrica de 12 meses, o grande vilão em junho deste ano são as passagens aéreas, com alta de 21,49% (mas o mercado anda muito oscilante, ao sabor da oferta e da procura, que já deve cair em agosto, após a temporada de férias escolares, legislativas e do Judiciário, em julho). O segundo vilão são os planos de saúde, com reajustes de 13,57%.

Outro vilão – que termina por impactar os preços dos serviços, muito dependentes da mão de obra, que subiu 8,69% no caso dos empregados domésticos e 8,67% nos chamados pequenos reparos (costureira, eletricista, gás, bombeiro hidráulico, pedreiro, pintor e marceneiro) – foram as tarifas bancárias, com alta acumulada de 8,55%, quase o triplo da inflação em 12 meses (3%). O jornal Valor fez um levantamento com 197 tarifas dos maiores bancos brasileiros nos últimos dois anos, e os reajustes de 119% delas (60,4% do total) subiram mais que a alta do IPCA entre julho de 2015 e junho deste ano, na faixa de 12%.

Ou seja, quando não ganham nos juros escorchantes que, na recessão e no desemprego, levam empresários e famílias à inadimplência, os bancos ganham absurdamente nas tarifas. Com esse resultado do IPCA será absurdo se o Copom não for ousado e reduzir os juros em 1 p.p., para 9,25% na reunião de 25 e 26 deste mês.

 

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