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Quem vai pagar os prejuízos de Janot?

Joesley Batista, dono da JBS Joesley Batista, dono da JBS

As trapalhadas do Procurador Geral da República na delação feita por Joesley Batista impediram uma recuperação mais forte da economia

Cena 1 – 5 de setembro de 2017, no dia seguinte ao anúncio do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de abrir investigação para avaliar a omissão de informações nas delações premiadas do dono da JBS, Joesley Batista [divulgadas dia 17 de maio, juntamente com as conversas gravadas por Joesley com o presidente Michel Temer, dia 7 de março, no Palácio do Jaburu], o Ibovespa chegou a atingir, às 10h20, 73.180 pontos (desde 2010 o índice não alcançava os 73 mil pontos), iniciando um movimento de realização de lucros em seguida. As ações da JBS chegam a cair mais de 8%.

Cena 2 – 18 de maio, no dia seguinte à divulgação, pelos veículos das Organizações Globo – primeiro, às 19h10 do dia 17 de maio, na coluna de Lauro Jardim no jornal O Globo e em seguida nos sites das OGs (G1 e Globoonline), além da Globonews e do Jornal Nacional –, o Ibovespa teve a maior queda do ano, de 8,80%. O recuo das ações foi tão acentuado na primeira meia hora que o pregão eletrônico precisou ser interrompido (circuit break) para devolver serenidade aos negócios. A maior queda do dia foi das ações da JBS. Pivô do escândalo que paralisou o andamento das reformas [econômicas, fiscais, previdenciária e política] e interrompeu o processo de recuperação da economia e do emprego, as ações da JBS tiveram o maior declínio do dia, que foi de 10%.

Cena 3 – 16 de maio de 2017, o Ibovespa sobe 0,31% (6º pregão seguido de alta) e atinge a maior cotação do ano: 68.684 pontos. Na véspera da divulgação bomba, as ações da JBS lideraram as baixas, com decréscimo de mais de 8%. O desempenho foi atribuído à divulgação, dia 15 de maio, do resultado de 1º trimestre, abaixo do esperado por analistas: um lucro líquido de R$ 422,3 milhões. Hoje, conclui-se que as coincidências das datas parecem ter sido intencionais, num jogada dos irmãos Batista para tentar sair do corner de cinco ações da PF. A Comissão de Valores Mobiliários, além dos movimentos suspeitos na venda de R$ 383 milhões em ações da JBS pelos controladores, também investiga pesadas operações de venda de dólar futuro pelos irmãos Batista, na véspera da divulgação das conversas filtradas pela PGR.

Percebe-se neste breve resumo, que a trajetória de recuperação do índice Bovespa teria sido bem mais acentuada e consistente se as trapalhadas do PGR, Rodrigo Janot, não tivessem deixado a economia e o país no limbo. Com base nos levantamentos da ADVFN, desde 29 de dezembro de 2016, as ações da JBS caíram 30%. Já o Ibovespa subiu mais de 20%. Até agosto havia ascendido 17,4%. Algumas ações valorizaram mais de 50% no ano. Quanto teria subido sem o acordo fajuto da PGR?

A empresa, controladora da Seara, era alvo de cinco investigações da Lava Jato e da PF quando seu presidente, Joesley Batista, agendou o encontro fatídico com o presidente Temer, industriado pelo então procurador da PGR, Marcelo Miller, que já recebia dinheiro do grupo J&F (holding dos irmãos Batista, que controlava a JBS, Alpargatas, Vigor, Eldorado, Flora, Banco Original, termelétrica-MS e construtora, [império que prosperou com as facilidades de crédito do BNDES e CEF nas gestões petistas]), mas só deixou oficialmente o MPF dia 5 de abril, sendo contratado quase em seguida pelo escritório Trench, Rossi & Watanabe, que representava a JBS e que na época esteve envolvido na negociação do acordo de leniência da J&F. Alpargatas, Vigor e Eldorado já foram vendidas pelo J&F, para fazer caixa.

Depois de denunciado na CCJ pelo advogado de Temer, Antonio Mariz de Oliveira, Miller foi desligado do escritório, que também se retirou do caso. O acordo de delação – no qual a PGR aceitou inédita isenção punitiva para os irmãos, em troca da incriminação do presidente da República – pode ser revisto. Pelo acerto, o grupo J&F se compromete a pagar multas de R$ 10,3 bilhões em 25 anos, sem qualquer imputação criminal aos controladores.

Desempenho da indústria

Do ponto de vista da economia, o IBGE divulgou hoje o desempenho da indústria em julho, com surpreendente alta de 0,8% (o mercado esperava +0,5%; o Bradesco previa estabilidade). O aumento segue-se ao fraco desempenho de junho (elevação de apenas 0,2%), em consequência do impacto do escândalo das fitas gravadas, divulgado na noite de 17 de maio. Vale recordar que a produção indistrial crescera 1,2% em abril e em maio. O Departamento Econômico do Itaú já considera que o número de junho será revisto para + 0,6%.

Assim, no acumulado do ano, em vez do aumento de 0,8%, poderemos ter alta de 1% na indústria nos primeiros sete meses do ano. E teríamos mais, não fosse o desastrado arranjo do PGR. O Itaú revisou ontem o incremento do PIB de 2017 de 0,3% para 0,8%, mantendo o crescimento de 2018 em 2%. Só que, antes da crise provocada por Janot, o Itaú previa elevação de 1% para o PIB de 2017 e de 2,7% para 2018.

A trajetória do emprego vinha acusando, pelo Caged, consistente recuperação na criação de novas vagas com carteira assinada, pela confiança dos mais diversos setores da economia com o andamento das reformas, sobretudo a da Previdência, após a primeira rodada de aprovação da Reforma Trabalhista [com o escândalo, esta só foi aprovada em agosto e a da Previdência segue emperrada, como as demais, gerando crescentes aumentos do déficit público].

Em abril houvera o mais animador resultado em vários meses, com a criação de 59,9 mil vagas líquidas. A recuperação em maio murchou a partir do dia 18 (houve queda para 34 mil vagas no mês). Em junho, nova baixa para apenas 9,8 mil vagas, até que julho registrou nova recuperação, com 35,9 mil vagas. A crise da delação pode ter custado 100 mil vagas.

Ninguém é ingênuo de acreditar que qualquer reforma da Previdência produza resultados antes de dois a três anos. Mas a dinâmica do déficit e das taxas de juros seria outra. Na reunião de 31 de maio, tudo se desenhava para o Copom baixar a Selic em 1,25 p.p. para 10%. Com a crise, o Copom puxou o freio e manteve o ritmo de 1 p.p. de queda, baixando a Selic para 10,25%. Tudo indica que amanhã ela caia para 8,25%. O Itaú aposta que ela termina 2017 em 7,25% ao ano, com novo corte no começo de 2018, para 7%. Já as Top 5 (as cinco insituições que mais acertam as pesquisas Focus do Banco Central sobre inflação e juros) apostam que a Selic fecha em 7% este ano e se mantém assim até o final de 2018. Fecho com as Top 5.

Não me canso de defender aqui maior ousadia do Copom para baixar os juros (o erro vem do excesso de cautela desde setembro de 2016). Juros menores são um alívio para as contas públicas e orçamentos familiares, bastante onerados pelos juros reais elevadíssimos (taxas de mais de 300% ao ano no cartão de crédito, contra uma inflação em 12 meses abaixo de 3%). O quadro, sem dúvida, seria outro sem as flechadas perdidas de Janot, que ainda promete novas ações até o fim de seu mandato à frente da PGR, dia 18. Mas quem vai pagar os prejuízos que causou?

 

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