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O Bitcoin e a febre das tulipas

O Bitcoin e a febre das tulipas

Essa especulação desenfreada sobre um instrumento financeiro que mais parece os conhecidos casos de pirâmides deveria levar as pessoas sensatas a colocar um pé atrás. Mas não é o que ocorre.

Moeda virtual criada no mundo digital há pouco mais de nove anos pelo misterioso desenvolvedor Satoshi Nakamoto (cuja identidade jamais foi comprovada), o Bitcoin atingiu patamares recordes esta semana. Sem qualquer controle de sua emissão (não existe um Banco Central regulando sua oferta e procura, através dos instrumentos monetários clássicos [encaixe compulsório e redesconto, além das intervenções diárias de aumento ou contração da liquidez via operações de open market]), a cotação da moeda ultrapassou os US$ 12 mil. Uma valorização acima de 1.500%, sendo mais de 1.100% só em 2017. 

Essa especulação desenfreada sobre um instrumento financeiro que mais parece os conhecidos casos de pirâmides – quem não se lembra das correntes da Amway, no governo Collor, no Brasil, das promessas mirabolantes de lucros dos fundos de Bernard Madoff, o especulador de Wall Street condenado a pagar mais de US$ 7 bilhões aos investidores lesados – deveria levar as pessoas sensatas a colocar um pé atrás. Mas não. A Chicago Board Options Exchange, a bolsa de contratos futuros de títulos, commodities e moedas anunciou a abertura de um contrato futuro de Bitcoins. 

O objetivo, alega a CBOE, é justamente proteger os eventuais investidores na moeda virtual com instrumentos financeiros (hedge, por exemplo), que previnam uma eventual derrocada das cotações, como os analistas mais sensatos vêm prevendo há muito tempo. Embora teoricamente acessíveis a qualquer investidor (inclusive no Brasil, na atual B3, a bolsa eletrônica que reuniu as operações da BM&F, da Bovespa e do mercado de balcão da Cetip), os contratos futuros são para profissionais ou investidores sofisticados, habituados a medir riscos em fração de segundos. 

A cobiça humana sempre desperta para súbitas valorizações de ativos. A disparada da Bitcoin ganhou matéria especial do Jornal Nacional, culminando com a informação da abertura dos contratos futuros. A CBOE Global Markets lançará futuros de bitcoin no próximo domingo (10). As negociações começarão, sob o símbolo "XBT", às 21h (de Brasília) e serão livres até dezembro. 

Instrumentos de negociação 

De acordo com o executivo-chefe da CBOE, Ed Tilly, os futuros serão contratos ajustados em dinheiro, baseados no preço de leilão da Gemini para o bitcoin, denominado em dólares. "Diante do interesse sem precedentes no bitcoin, é vital que forneçamos aos clientes instrumentos de negociação para ajudá-los a expressar nossas visões e proteger a exposição deles", justificou. 

Na manhã desta quarta-feira, o valor de mercado total do bitcoin, que é armazenado em cerca de 950 computadores no mundo inteiro, atingiu US$ 200 bilhões pela primeira vez, nas contas da CoinMarketCap (embora não se saiba o montante exato em circulação). Nesse valor, a moeda já superaria companhias como Oracle e Coca-Cola. Apesar dos vários comentários de que a valorização da criptomoeda é uma bolha ou uma fraude, como advertiu o diretor executivo do J.P.Morgan, Jamie Dimon, o preço do bitcoin continua fortemente volátil e segue disparando. 

Nos últimos 10 anos, a história dos mercados financeiros está marcada por várias bolhas financeiras, como o crack de 1929. Joseph Kennedy, o patriarca da família mais famosa dos EUA, não se notabilizou apenas por fazer fortuna com o contrabando de bebidas na Lei Seca. Era também exímio especulador de Wall Street. Mas escapou do crack por sua sagacidade. Em suas memórias, conta que estava engraxando os sapatos quando o moço da graxa comentou: “Meu vizinho está querendo aplicar em ações, o que o senhor acha?” Joseph já antecipava a máxima moderna de que, quando a bolsa é manchete de jornal, está na hora de vender; quando é manchete na TV, já passou da hora, e tratou de vender imediatamente. Salvou a fortuna. 

Sabedor de suas malícias, após o crack, o presidente Roosevelt criou a Securities Exchance Comission (SEC) para atuar na regulação e controle do mercado de capitais e deu a Joe Kennedy a estrela de xerife. A raposa saberia como controlar o galinheiro... Nem assim, nos anos 80, os EUA deixaram de passar por dois crashs. E, mesmo com o alerta feito em 1990 por Peter M. Garber, que lançou o clássico “Famous First Bubbles”, chamando a atenção para os riscos da repetição da bolha das tulipas, da primeira metade do século XVII, sofremos a pirâmide de Maddof e a explosão do subprime de agosto de 2007, com a quebra do Lemonn Brothers... 

A origem da febre das tulipas 

Para relembrar a febre das tulipas, vale consultar a história, especialmente a tomada de Constantinopla (atual Istambul, capital da Turquia) pelo Império Otomano, em 1453, num claro enfraquecimento do Império Romano, que implicou sério revés às caravanas de comerciantes que faziam o intercâmbio entre a Ásia (Índia e China, através do atual Afeganistão, contornando a Cordilheira do Himalaia) e os principais centros consumidores da Europa, estendendo-se até a Rússia. Como se sabe, a tomada de Constantinopla marca o fim da Idade Média e o começo do Renascimento, a partir da descoberta do Novo Mundo e de novas rotas de comércio marítimo. 

Um texto de 2011: www.mudancasabruptas.com.br/Tulipamania.html e um filme de produção americana e britânica, lançado mês passado no Brasil, “A Febre das Tulipas”, dirigido por Justin Chadwick, romanceiam o que foi a insana especulação com bulbos de tulipas. Tudo começa em 1593, quando os mercados de Constantinopla faziam a “arbitragem” do comércio entre a Ásia e a Europa (as Américas haviam sido descobertas por Espanha e Portugal e cobiçadas por corsários e exércitos da França, Inglaterra e Holanda).

O botânico holandês Carolus Clusius se encantou pela flor de nome Tulipa e a levou à Holanda para pesquisas. Ele se recusou a dá-la de presente a qualquer outra pessoa, e guardou a sete chaves sua descoberta oriental. Mas não adiantou. A tulipa ou partes delas, os bulbos, foram roubadas e o cultivo da bela flor se disseminou pela Holanda. No começo do século XVII começa uma febre pelos bulbos.

Com a Companhia das Índias Orientais, criada em 1602 para atuar no comércio com a Ásia, as tropas holandesas, a bordo de ágeis esquadras armadas, foram até a China e o Japão, venceram os portugueses que descobriram as rotas para as Índias e ocuparam parte do sul da índia e o então Ceilão (atual Sri Lanka) e as milhares de ilhas da Indonésia.

No Ocidente, além de várias ilhas do Caribe (como Curaçao e a atual Antilhas Holandesas), invadiram no século XVII o Nordeste brasileiro, baseados em Pernambuco e tentaram, sem sucesso, expandir os domínios ao Ceará e Maranhão, ao Norte, e à Bahia, ao Sul.

Mercado financeiro holandês

Com a descoberta do Novo Mundo e a expansão das cidades (feiras de comércio), os europeus passam a olhar com atenção para tudo passível de valorização. A beleza da tulipa encantou a todos. Amsterdã, com um pouco mais de 1 milhão de habitantes no começo dos anos 1600, virou a sede de sólido recém-criado mercado financeiro holandês, no qual não era permitido comprar futuro à descoberto, incidindo multas por contratos não cumpridos, entre outras novidades para a época.

Apesar dos controles, a aposta em bulbos de tulipa virou febre. Entre 1624-1637 (pouco mais da metade dos nove anos de existência do Bitcoin) houve disparada incrível nas cotações, sobretudo de 1634 a 1637. De 1624 a 1637, os preços subiram de 1 mil guilders para 55 mil guilders (moeda da época). Bulbos mais raros chegaram a ser vendidos em 1637 pelo equivalente a US$ 33 mil a unidade.

Jovens casais apostaram suas economias (como acontecem com os incautos que só despertam para a febre quando as bolhas estão prestes a estourar, justamente quando os mais espertos começam a se desfazer de suas posições) e se arruinaram (tema do filme). De um dia para outro os preços caíram 80%!.

O esvaziamento da OGX durou um ano. Os cracks de 1929 e de 2007 duraram dois a cinco dias até que os preços vieram ao chão. Hoje, em palestra a investidores, André Jakurski, gestor dos fundos JGP, advertiu que a alta dos bitcoins e o preço do Da Vinci prenunciam sinais de euforia nos mercados e recomenda redução das exposições ao risco (do teto de 60% para algo mais conservador, na faixa de 35% a 40%).

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