Gilberto Menezes Côrtes - Executivos Financeiros - Executivos Financeiros http://executivosfinanceiros.com.br Tue, 21 Nov 2017 10:24:18 +0000 Joomla! - Open Source Content Management pt-br Só no Brasil: bancos lucram mais emprestando menos http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/6088-so-no-brasil-bancos-lucram-mais-emprestando-menos http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/6088-so-no-brasil-bancos-lucram-mais-emprestando-menos Só no Brasil: bancos lucram mais emprestando menos

Balanços do terceiro trimestre do Itaú, Bradesco e Santander mostram que instituições aproveitaram a queda do custo de captação e ampliaram as margens nas operações

Os balanços do terceiro trimestre, já divulgados pelos três maiores bancos privados (Itaú, Bradesco e Santander), comprovam a aberração do sistema financeiro brasileiro. Apesar da queda do volume de empréstimos, os bancos estão lucrando mais. Aproveitaram a queda do custo de captação (com a baixa da Selic de 14,25% ao ano em setembro de 2016 para 8,25% ao ano em setembro último) e ampliaram as margens nas operações. E ainda reajustaram as tarifas de serviços aos clientes bem acima da inflação, que ficou em 2,54% nos 12 meses terminados em setembro.

No líder Itaú Unibanco, que teve lucro líquido de R$ 6,077 bilhões no 3º trimestre (aumento de 0,8% no trimestre) e de R$ 17,9 bilhões no acumulado dos nove meses de 2017 (+15% sobre igual período de 2016 – bem acima da inflação em 12 meses). Enquanto o custo do crédito caía 10,8% no trimestre e 28,1% em 12 meses, a redução das margens de lucros com os clientes foi bem menor: -2,2% no trimestre; e -3,2% em 12 meses. Ou seja, os bancos reforçaram suas margens com a queda dos juros.

A representatividade das Receitas de Prestação de Serviços e Resultado de Seguros no Produto Bancário do Itaú Unibanco atingiu 37%, o maior valor em dois anos. Para efeito de comparação, no 3º trimestre de 2015 (quando se intensificou a forte contração dos empréstimos), a participação era de 31,8% nos resultados do banco. Vale lembrar que, de 2015 para cá, o volume de empréstimos às grandes empresas encolheu 24,98% para R$ 164,598 bilhões, enquanto a fatia destinada às pequenas e micros empresas caía 4,05% para R$ 59,054 bilhões. Em relação a 2012 a queda chega a 25,8%!

Ao frear as concessões de empréstimos aos pequenos empresários, a partir de 2013, o Itaú ficou com inadimplência menor que a do Bradesco neste segmento (nas operações com atraso acima de 90 dias): reduziu o índice de 6,3% em dezembro de 2016 para 4,2% em setembro último, enquanto a inadimplência das grandes empresas caiu de 2,8% para 1% no mesmo período.

No Bradesco, que teve lucro líquido trimestral recorrente de R$ 4,8 bilhões e de R$ 14,1 bilhões em nove meses, os percentuais de atraso das PEM eram, respectivamente, de 7,6% e 6,79% (com pico de 8,6% em dezembro de 2016). Já a inadimplência das grandes empresas declinou de 2% em setembro de 2016 para 1,8% no 3º trimestre (o pico foi de 2,3% em dezembro, com queda até 1,52% no 2º trimestre).

Vale dizer que as operações de empréstimos a Pessoas Jurídicas representam 64,6% da carteira de crédito do Bradesco e encolheram 10,3% no ano. As grandes empresas tiveram corte de 6,8% no crédito dos nove meses do ano e o crédito às PEMs encolheu 17,8%. A participação do maior devedor (Petrobras) aumentou de 2,2% em setembro de 2016 para 2,6% do total de créditos em setembro último. O percentual de operações em atraso das grandes empresas acima de 91 dias saltou de 4,9% para 7,3%. E esse parece ser o calcanhar de Aquiles do banco.

Já as operações com Pessoas Físicas (35,4% do total) cresceram 0,7%. O principal produto (8,7%) é agora o crédito consignado (concentrado em aposentados) com crescimento de 11,6% no ano. A segunda participação é do crédito imobiliário (6,9% da carteira), que cresceu 5%, superando os 6,8% do financiamento a cartões de crédito, que encolheu 1,8% no ano após as mudanças no rotativo em abril. As operações de financiamento de veículos, via leasing e CDC, encolheram 3,2% e representam 4,1% dos créditos totais. Destaque: a redução de 20,5% no cheque especial em 12 meses.

No cenário em que a economia dá sinais de reação, após a mais longa e profunda recessão da história, com forte desemprego, o Bradesco aproveitou a incorporação total do HSBC para dar baixa de ativos podres, fazer cessão de créditos (R$ 5 bilhões) e promover um plano de demissão voluntária para reduzir o quadro de pessoal, com despesas estimadas de R$ 2,3 bilhões, das quais R$ 1,5 bilhão foram apropriadas no trimestre.

Diante disso, é incrível a descrição do Bradesco sobre a decomposição da origem dos lucros do 3º trimestre e do ano: 32% vieram das operações de crédito; 29% das atividades de seguros e previdência (controlados 100% pelo Bradesco); 30% pela tarifas de serviços (com destaque para o crescimento de 12,3% nas contas correntes, de 6,6% nos cartões de crédito e de 24,5% nas receitas com a gestão de fundos, que incluem a distribuidora BEM).

Liderança na gestão de fundos

A propósito, de acordo com os dados de setembro da Anbima, o Bradesco + BEM segue à frente do Itaú (e a Distribuidora Intrag, 100% de seu controle) na liderança da gestão de fundos: R$ 870,8 bilhões, contra R$ 825,2 bilhões do Itaú. Mas o ranking pode mudar a favor do Itaú até o fim do ano, com a incorporação do Citibank a partir de novembro. Em setembro, o Citibank geria R$ 49,5 bilhões em fundos, após ter perdido R$ 15 bilhões no ano. O grande filé do Citibank são as operações de custódia de ativos: R$ 709 bilhões, quase o triplo dos R$ 230,7 bilhões do JP Morgan. O Itaú Unibanco vem à frente dos bancos nacionais, com R$ 183,5 bilhões, contra R$ 167,5 bilhões do Bradesco, segundo a Anbima.

Comparado ao boom do crédito em setembro 2013, a carteira do Itaú deu uma tremenda guinada. Naquela época, as operações com as grandes empresas representavam 32,2% e as com as pequenas, médias e micro empresas somavam 20,5%, acumulando 52,8% do total. Já em setembro último, a fatia das grandes empresas encolheu para 28,5% e a das PEMs para 16,4%, caindo para 44,9% do total.

A mudança diminuiu também a fatia dos financiamentos a veículos, de 12,2% para 4,9%. O Itaú tratou de expandir as operações do crédito consignado, de 5,9% para 13,1% (concentradas em aposentados) e no crédito imobiliário, de 9,1% para 13,8%. Outra grande expansão veio no cartão de crédito: 7,3% para 12,3%. Vale dizer que nas operações de crédito imobiliário e de financiamento a automóveis, as garantias correspondem a 55% do bem financiado. Uma arapuca para os devedores.

Se nada mais podia ser dito sobre a ganância dos bancos que gozam de privilégios no Brasil, o relatório das atividades mundial do espanhol Santander resume o quadro. O Santander Brasil (que assumiu as operações do antigo Banco Real + Banespa ao comprar o ABN-Amro) não só representou o maior lucro da organização: R$ R$ 2,586 bilhões, com crescimento de 37,3%. As margens de juros (16,7%) estão bem acima da das operações no Reino Unido (8,3%) e daquelas na Espanha (negativas em 0,4%).

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Gilberto Menezes Côrtes Sun, 05 Nov 2017 00:00:00 +0000
Bradesco: juros só voltam a subir em 2019 http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/6077-bradesco-juros-so-voltam-a-subir-em-2019 http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/6077-bradesco-juros-so-voltam-a-subir-em-2019 Bradesco: juros só voltam a subir em 2019

Para economista do Bradesco, devido à intensidade da recessão, do desemprego e dos níveis de reajuste salariais, há um forte hiato do PIB que permite a retomada sem risco de volta da inflação

Com a credibilidade de quem apontou (em agosto) a queda do patamar de juro neutro do país, ou seja, a taxa de juros estrutural necessária a impedir que a inflação volte a subir (que abordamos na coluna de 30 de agosto e foi reconhecida no comunicado do Copom que baixou a taxa Selic em 0,75 p.p. para 7,50% ao ano), o Departamento Econômico do Bradesco afirmou dia 25 - em estudo publicado antes da decisão do Copom, no começo da noite - que “as taxas de juros só devem voltar a subir em 2019”.

Para o economista do Depec, Leandro Câmara Negrão, devido à intensidade da recessão, do desemprego e dos níveis de reajuste salariais, diante do forte impacto baixista dos preços dos alimentos na formação do IPCA, há um forte hiato do PIB que permite a retomada sem risco de volta da inflação (o que foi mencionado no comunicado do Copom e traduzido pelo mercado como a possibilidade de mais um corte de 0,50 p.p, em 5 e 6 de dezembro e um novo corte de 0,50 p.p. ou de 0,25 p.p. na reunião de 6 e 7 de fevereiro). O Bradesco prevê IPCA de 3% em 2017 e de 3,9% em 2018. Já o Itaú aposta em IPCA de 3% e 3,8%, respectivamente, e que a Selic cairá a 6,50%. O Bradesco é mais cauteloso e estima que a Selic fique em 6,75% em fevereiro, permanecendo assim até o fim de 2018 (idem o Itaú em relação aos 6,50%).

Vale lembrar que ambas as projeções foram feitas antes da revisão da bandeira vermelha para as tarifas de energia elétrica, diante de imensa barbeiragem do governo e dos setores responsáveis pelos despachos de carga de hidrelétricas, térmicas e fontes alternativas (NOS, sobretudo), que ainda trabalham como se os principais reservatórios do SE e do NE não tivessem sofrido forte assoreamento nas últimas 3 décadas e já operem (no máximo) com cerca de 50% a 60% da capacidade original de armazenamento de água. Como as térmicas movidas a gás natural não foram acionadas no 1º semestre, agora é um barata-voa de tarifas e dívidas futuras, revivendo o pesadelo da gestão Dilma que, após a redução de 18% no fim de 2013, provocou alta média de 46% no tarifaço geral de 2015, o estopim da mega recessão.

Por isso, o Copom já espera (certamente em função da forte alta da bandeira tarifária da energia elétrica e do aumento acumulado de 35% do GLP de agosto a outubro) que o IPCA em 12 meses suba dos atuais 2,54% ao ano para 3,3%, e fique em 4,1% em 2018. O Bradesco espera que a taxa Selic só volte a subir em 2019 (para 8% ao ano) e volte ao patamar de 7% ao ano nos anos de 2020 a 2023. Em função do minichoque de tarifas, o Copom antecipou que deve haver “uma redução moderada na magnitude de flexibilização monetária”. O acompanhamento da conjuntura vai ditar se há espaço para a extensão do ciclo de baixa até o Carnaval.

Para Leandro Câmara, a reorganização do ambiente econômico brasileiro desde a meados de 2016 (troca do governo Dilma pela equipe econômica chefiada por Henrique Meirelles, no governo Temer) resultou em ancoragem das expectativas de inflação e desobstrução dos canais de transmissão da política monetária. “Ao adicionarmos a esse ambiente a retomada moderada do crescimento econômico vista até agora, a apreciação da moeda brasileira e um choque de oferta favorável de alimentos, o resultado tem sido uma desaceleração considerável da inflação, que passou de 6,3% em 2016 para 2,4% no mês passado”, diz. 

Descompressão disseminada 

O economista do Depec lembra que, apesar da forte contribuição dada pela queda dos preços de alimentos (-2,4 p.p.), a descompressão foi disseminada, totalizando uma redução de 3,8 p.p. do índice, incluindo a contribuição de serviços, com queda de 0,5 p.p.. Retrocedendo a comparação com o final de 2015, as contribuições se equilibram ainda mais, ressalta. Para mim, contudo, o Copom e o BC erraram ao subestimar o impacto benéfico da supersafra de alimentos e devem estudar melhor seus meandros. 

Se a inflação medida pelo IPCA ficar mesmo em 3% ou 3,1%, próxima ao piso do regime de metas de inflação (4,50% como centro da meta, com limites superior e inferior de 1,5 p.p.), o economista do Bradesco sublinha que essa variação baixa gerará uma inércia favorável para o próximo ano, para quando espera aceleração do IPCA para 3,9%, permanecendo abaixo do centro da meta, mesmo considerando a retomada do crescimento econômico (de 0,9% em 2017 para 2,8% em 2018). 

Além da inércia favorável e da ancoragem das expectativas, ele elenca outros vetores e sustenta a previsão de um cenário benigno para a inflação: a) elevada ociosidade na indústria, que, mesmo com a recuperação da produção, segue 7,0 p.p. abaixo da média histórica; b) ausência de pressões oriundas do mercado de trabalho – mesmo que a taxa de desemprego esteja melhorando antes do que o esperado, os dissídios salariais seguem em níveis historicamente baixos (4,9%) e o aumento esperado para o salário mínimo em 2018 (3,0%) será o menor desde 1996; c) há enorme folga no balanço de pagamentos, que permite ao país importar um eventual excesso de demanda sobre a produção doméstica sem gerar pressões inflacionárias. 

Ele trabalha com dois cenários simulados, nos quais a inflação fica abaixo do centro da meta em 2018 e somente em 2019 pode vir a ultrapassar essa marca. Com um fechamento lento do hiato, a inflação estará abaixo do centro da meta ainda em 2019, atingindo 4,1%. Já sob um fechamento mais acelerado, a inflação chega a 4,8%, requerendo reação da política monetária no final de 2018 ou início de 2019, em função da defasagem entre a política monetária e seu resultado efetivo sobre a variação de preços. 

No cenário central do Bradesco, a inflação deverá ficar no centro da meta no final de 2019, considerando um aperto de 125 b.p. na taxa básica de juros a partir do início daquele ano, condicional à evolução da agenda de reformas e do ambiente para investimentos, que pode tornar o aperto maior ou menor do que o estimado hoje em dia. Nos cenários, o Bradesco considera a ausência de um choque climático de forte intensidade, taxa de câmbio estável e expectativas de inflação ancoradas. 

O economista chama a atenção para outro ponto: o de que a reforma que definiu o teto de gastos (ausência de expansão real do gasto federal), a nova taxa de juros do BNDES e importantes ajustes na política para-fiscal (menor intensidade na concessão de crédito público e direcionado) podem não estar sendo adequadamente incorporados no hiato do produto e estender o período de juros baixos adiante. Ao mesmo tempo, incertezas do cenário externo, combinadas com dúvidas remanescentes em relação à continuidade da agenda de reformas, podem pressionar a taxa de câmbio e as expectativas, acelerando precocemente a inflação. Mesmo assim, as pressões ficariam mais para 2019 (nova administração) do que para 2018. 

Para mim, a grande variável será a possível radicalização do quadro eleitoral em 2018 – Lula X Bolsonaro, por exemplo, que tiraria a racionalidade do ambiente econômico.

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Gilberto Menezes Côrtes Fri, 27 Oct 2017 00:00:00 +0000
Em fevereiro, tem Carnaval ... e Selic de 6,75% a 6,50% http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/6055-em-fevereiro-tem-carnaval-e-selic-de-675-a-650 http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/6055-em-fevereiro-tem-carnaval-e-selic-de-675-a-650 Em fevereiro, tem Carnaval ... e Selic de 6,75% a 6,50%

Projeção reflete novas estimativas de queda da inflação para 2017 e 2018

As previsões, respectivamente, são do Bradesco (que acaba de revisar o cenário econômico para 2017 e 2018) e do Itaú. O banco da Cidade de Deus (Osasco-SP) baixou a estimativa da taxa Selic de 7% (em dezembro deste ano) para 6,75% em dezembro de 2018. Este nível já seria atingido nas reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Central de 6 e 7 de fevereiro, antes do Carnaval, que começa sábado, 9 de fevereiro. Já o Itaú, na semana passada, baixou sua previsão para a taxa Selic, que atingiria a 6,50% em fevereiro (queda de 0,50 p.p, frente a dezembro) e ficaria nesse patamar até dezembro de 2018.

As apostas de baixa da Selic são resultado das novas estimativas de queda da inflação para 2017 e 2018. O Bradesco prevê IPCA de 3% este ano (limite mínimo do piso da meta de inflação, de 4,50%) e de 3,9% em 2018. Já o Itaú também espera 3% em 2017 e 3,8% para 2018. O alto nível de ociosidade na indústria e no comércio e as projeções de moderada alta (4,7%) para os preços administrados (devido à indexação menos intensa dos preços de 2017) garantem a inflação baixa em 2018.

Levando em conta a inflação projetada para os 12 meses, o Bradesco estima que o juro real deverá fechar 2018 em 2,9%. Será uma queda importante frente a 2017, que deve fechar com o piso do juro real na absurda taxa de 7,3%, devido ao erro tremendo do Banco Central. O Copom agiu com excesso de cautela em 2016 e subestimou o impacto da queda dos preços agrícolas [veio pelo elevador] no comportamento do consumo e nos demais preços da economia, enquanto o Copom descia a Selic pela escada, travando a economia e prolongando a agonia da recessão e do desemprego.

Para se ter ideia, em 2012, quando o IPCA subiu 5,8%, o PIB 1,9% e a taxa Selic caiu para 7,25%, o juro real (descontando a taxa Selic acumulada em 12 meses e a inflação no mesmo período) ficou em 2,5%. Em 2013, as manobras de fundo eleitoral do governo Dilma (já se movimentando para a reeleição) fizeram o juro nominal subir para a 10%, levando a inflação a 5,9% e o juro real cair para 2,2%.

O PIB cresceu 3%, com o consumo das famílias (via endividamento) crescendo 3,5% em 2013 e 3,6% em 2014. Mas em 2015, com o tarifaço (reajustes médios de 18,08% dos preços administrados), o IPCA bateu os 10,67%, o consumo das famílias caiu 3,9% e derrubou o PIB em 3,8%. No ano passado, a inflação ficou em 6,3%, o consumo das famílias encolheu mais 4,2% e o PIB contraiu 3,5%.

Na última revisão das projeções da economia, o Bradesco aumentou a taxa de crescimento para 2017 de 0,7% (última estimativa do FMI) para 0,9% e elevou a estimativa de 2018 de 2,5% para 2,7% (o Itaú espera +0,8% e elevou de 2,7% para 3% a previsão de crescimento para 2018). Um dado que chama a atenção na estimativa do Bradesco é a recuperação do consumo das famílias. Após o recuo de 4,2% no ano passado, haveria expansão de 1% este ano e de 2% em 2018.

Impacto do recuo nos preços dos alimentos

A questão que está clara, nas recentes revisões de cenário dos bancos, institutos de pesquisa e consultorias, é que o Copom errou muito em não prever os impactos da queda dos alimentos na composição da inflação. Em agosto de 2016 – quando a nova composição do Copom foi escolhida (e já participou das reuniões de outubro e novembro, quando houve declínio de apenas 0,25 p.p. na taxa Selic, que baixou de 14,25% para 13,75%) a taxa de 12 meses do IPCA era de 8,97% e a taxa acumulada dos alimentos e bebidas consumidos em domicílio era superior a 16%. O ano fechou com o IPCA em 6,29% e os alimentos em 9,45%.

Mas já em janeiro deste ano, com a supersafra de 2016-17 confirmada (desde setembro as estimativas do IBGE já apontavam forte expansão, que se confirmou hoje com a última previsão de aumento de 30,3% na produção de grãos – soja, milho, arroz e feijão), a violenta deflação dos preços dos alimentos puxou para baixo uma série de preços do mercado de serviços. Em setembro último, o desempenho dos alimentos e bebidas consumidos em casa registrava deflação de 5,3% em 12 meses (-6,2% em agosto), arrastando a variação dos serviços para 5% (4,8% em agosto).

Os preços livres da economia (sobre os quais a política monetária exerce algum impacto, com defasagem de seis a nove meses) desceram da faixa de 8,7% (nos 12 meses terminados em setembro de 2016) para 1,4% em setembro (1,3% em agosto). O resultado do atraso do BC em baixar os juros (o acidente causado pela divulgação, em 17 de maio, das fitas gravadas por Joesley Batista com o presidente Temer, no Palácio do Jaburu, em 7 de março, fez o Copom manter em 1 p.p. a baixa que era esperada para 1,25 p.p. não exime a barbeiragem do BC) só fez adiar a retomada.

Ser engenheiro de obra feita é fácil. Mas quem nos acompanha sabe que critico o Copom desde o fim de 2016. A verdade é que a recuperação da economia ocorre apesar do BC. A recuperação se acelerou de julho para cá e o maior exemplo são as taxas de desempenho do setor automobilístico. As empresas cancelaram as folgas, recontratam funcionários e tiram da gaveta os planos de expansão. Isso é só uma amostra de como a economia e o desemprego poderiam estar em melhor situação se a queda dos juros tivesse vindo antes e de forma mais agressiva, sem prejuízo do combate à inflação. Ou seja, não cabe ao BC o mérito que propala no controle da inflação.

O Bradesco já prevê que a produção industrial, após cair 8,3% em 2015 e 6,6% em 2016, vai crescer 2,4% este ano e 3,5% de acordo com os dados do IBGE. No caso do desemprego, as taxas estimadas para este ano estavam fixadas acima de 14% por algumas instituições; o Bradesco chegou a prever 13,5%, agora calcula que vá declinar de 12,8% em dezembro de 2017 para 12,5% em dezembro de 2018. O Itaú chegou a estimar o desemprego de 12,6% em dezembro de 2018 e agora baixou para 12%. Imagina se o BC tivesse sido mais eficiente...

Para não repetir erros, sugiro que os modelos de acompanhamento do Copom (seguido pela maior parte das instituições financeiras) estudem mais a fundo o impacto dos diversos itens do orçamento – a começar pelos Alimentos e bebidas nas despesas das famílias. Que são e sempre serão os pilares do consumo e do crescimento.

Com tanto ociosidade, os investimentos só virão por absoluta necessidade de correção de gargalos na infraestrutura pública (mediante regime de concessões e/ou privatizações) e nos setores privados (pela imperiosa busca da eficiência).

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Gilberto Menezes Côrtes Tue, 10 Oct 2017 00:00:00 +0000
Inflação menor abre espaço para Selic a 6,5%, uma baixa histórica http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/6048-inflacao-menor-abre-espaco-para-selic-a-65-uma-baixa-historica http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/6048-inflacao-menor-abre-espaco-para-selic-a-65-uma-baixa-historica Inflação menor abre espaço para Selic a 6,5%, uma baixa histórica

Alta dos preços pode ficar abaixo do piso mínimo da meta, que é de 3%, graças ao setor de Alimentação e Bebidas

Apesar da pequena surpresa no IPCA de setembro, que subiu 0,19%, segundo revelou hoje o IBGE, impulsionado pelos reajustes dos insumos energéticos (o GLP subiu 4,18% e os combustíveis, 1,91%) - superando as expectativas do mercado [em torno de 0,09%; e 0,07% para o Bradesco] -, registrando a primeira alta em 12 meses desde agosto de 2016 (de 2,46% em agosto para 2,54%), os dados de Alimentação e Bebidas (-0,41% a quinta queda seguida) reforçaram a expectativa de que a inflação de 2017 possa ficar abaixo do piso mínimo da meta (3%, com 1,5 p.p abaixo da meta de 4,50%).

O Banco Itaú, que ontem divulgou sua revisão do cenário Brasil para 2017 e 2018, está revendo a taxa do IPCA de 2017 de 3,2% para 3% (mesmo nível previsto pelo Bradesco) e baixou o IPCA de 2018 de 4% para 3,8% [o Bradesco espera 3,9%]. O otimismo do Itaú é tal (a previsão do PIB de 2018 foi revista de 0,7% para 0,8% e a de 2018 de 2,7% para 3% [o Bradesco esperava 0,7% e 2,5%, respectivamente]) que o maior banco privado da América Latina avançou na previsão de queda da taxa Selic.

A Selic deve fechar 2017 em 7%, com queda de 0,75 p.p na reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central de outubro, quando cairia a 7,50% ao ano, e outra baixa de 0,50% em dezembro, fechando o ano em 7%. Mas, diante da perspectiva de queda da inflação e de redução na taxa de câmbio (de R$ 3,35 para R$ 3,25 em 2017, mantendo a projeção de R$ 3,50 para dezembro de 2018), o Itaú acredita em nova queda de 0,50 p.p. na reunião do Copom em fevereiro, levando a Selic a 6,50% - a menor taxa histórica desde a criação do Copom e do regime de metas de inflação em 1999 – ficando neste patamar até o final de 2018. O juro real, porém, segue muito alto, devido ao erro do Copom de não iniciar baixa vigorosa no último trimestre de 2016.

O novo aumento de combustíveis nas refinarias, anunciado pela Petrobras, para vigorar amanhã, com alta de 1,9% na gasolina e de 0,6% no diesel, e a adoção da bandeira vermelha na energia em outubro podem gerar pressão dos insumos energéticos sobre a inflação e os orçamentos.

A LCA Consultores está projetando alta de 0,45% no IPCA de outubro. Como em outubro de 2016, a alta mensal foi de 0,26%, a taxa em 12 meses voltaria a subir de 2,53% para 2,73%. Ainda abaixo do menor piso da meta. Entretanto, como os preços dos alimentos e bebidas vêm reduzindo os percentuais de baixa mês a mês, se a alta dos combustíveis e da energia prosseguir neste último trimestre, o IPCA pode fechar o ano na casa de 3%, ou pouco acima.

Uma solução no orçamento: mudar hábitos alimentares

Você, caro leitor ou leitora, já deve ter sido diversas vezes instado(a) ao longo de sua vida a mudar os hábitos alimentares. Amigos que adotaram a macrobiótica ou a dieta vegana – em ambos os casos abolindo as carnes – sempre falaram maravilhas da nova dieta. Você, aferrado às tradições familiares (não dispensava a carne assada da mãe ou da avó, receita de família desde o século passado), achava difícil e caro seguir uma receita que abolisse a proteína animal.

Pois, olhando o resultado do IPCA (despesa das famílias com renda até 40 salários mínimos – R$ 37.480) e do INPC (renda até 5 SM ou R$ 4.685) –, fica claro que a alimentação sem carne e baseada em grãos, feijões, oleaginosas, tubérculos, legumes e frutas – além de todos os comprovados efeitos benéficos para a saúde, proporciona um bem ainda mais para a parte mais sensível do corpo humano: o bolso.

Nos últimos 12 meses - quando a inflação (do IPCA ou do INPC), que nada mais é do que a avaliação, ponderada, de cada item na cesta de consumo das famílias [razão para cada família ou indivíduo sentir a inflação de modo diverso], acumulou 2,54% pelo IPCA ou 1,63% pelo INPC – é notável a queda do principal item de despesas (Alimentação e Bebidas) em relação a todos os outros oito itens.

No IPCA, o componente Alimentos e Bebidas teve queda de 2,14%, o mesmo havendo com Artigos de Residência (-1,27%), Habitação subiu 4,10%, Vestuário ficou 2,8% mais caro, Transportes encareceu 3,99%, Despesas Pessoas tiveram alta de 4,73% e Comunicação ficaram 1,27% mais caras. Educação, com + 7%, e Saúde e Cuidados Pessoais, com alta de 6,77% (indexadas a 2016), puxaram as despesas para cima.

Aí é que os argumentos dos amigos veganos e macrobióticos podem te sensibilizar. Veja os itens da alimentação em domicílio que mais caíram no ano: cereais, leguminosas e oleaginosas tiveram baixa de 29,40%; tubérculos, raízes e legumes caíram 21,18%, lideradas pela queda de 41,45% na batata-inglesa; as frutas ficaram 10,96% mais em conta. O que subiu: Pescados (+9,94%); carnes e pescados industrializados (+2,09%), enlatados e conservas (+2,68%) e bebidas e isotônicos (+5,94%). Que tal? E a lista dos campeões de baixa é liderada pelo feijão carioca (-57,65%), seguido pelo feijão mulatinho (-35,83%) e pelo feijão preto (-33%).

Tudo bem. Subiram mais de 100% em 2016 e ainda não devolveram a alta depois da supersafra deste ano. Mas não dá para encarar uma salada de feijão fradinho, que ficou 28,13% mais barato? Ou carregar no tomate, 20% mais barato? Tenho amigos que têm problema com leite (eu descobri que era a causa das minhas crises de asma só em 2005, quando vendi as vacas do sítio e tirei o leite do café da manhã). No bolso, para quem não tem problemas alérgicos, ele está fazendo bem este ano: o leite longa vida baixou 23,96%, e o queijo ficou 2,76% mais em conta.

Atingido pelas investigações da Polícia Federal e pelo escândalo do grupo JBS-Friboi, o pessoal da carne tratou de se ajustar ao impacto da superoferta de milho e soja que barateou o preço das rações e provocou queda de 1,13% no óleo de soja (devia ser maior) e de 3,72% no frango em pedaços. Na média, a carne bovina baixou 0,69%.

Sinal de quem ainda tem demanda para os churrascos de fim de semana. Se você não for convencido pelos benefícios à saúde, saiba que os Planos de Saúde ficaram 13,54% mais caros, os serviços médicos-dentários encareceram, em média, 6% e os remédios subiram (na média) 4,34%. A baixa da alimentação vai segurar os reajustes em geral para 2018 (e os planos de saúde devem subir no máximo entre a faixa de 5% a 7% - mais que isso é roubo). Não vale aproveitar a maré e mudar os hábitos?

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Gilberto Menezes Côrtes Fri, 06 Oct 2017 00:00:00 +0000
PNAD: primeira alta do emprego mês/mês em 20 meses http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/6029-pnad-primeira-alta-do-emprego-mes-mes-em-20-meses http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/6029-pnad-primeira-alta-do-emprego-mes-mes-em-20-meses PNAD: primeira alta do emprego mês/mês em 20 meses

Taxa de desocupação recua mais do que o esperado no trimestre junho-agosto e fica em 12,6%

A taxa de desemprego do Brasil recuou mais do que o esperado no trimestre junho-agosto e igualou a melhor marca de 2017 ao ficar em 12,6%, revelou hoje o IBGE. O número veio abaixo das estimativas do mercado (12,7%, sendo que o Bradesco previa 12,8%). Embora o resultado ainda tenha sido impulsionado sobretudo pelo aumento do emprego informal, foi a primeira vez, desde janeiro de 2015 (em 20 meses, portanto), que o nível de emprego (dessazonalizado) teve alta na comparação mês/mês do ano anterior, como observou a LCA Consultores. No trimestre anterior (maio-julho), a taxa havia sido de 12,8%.

De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, os números do trimestre junho-agosto foram os melhores do ano: no último trimestre, o total da força de trabalho aumentou 0,7% (+712 mil pessoas), atingindo 104,2 milhões. A população fora do mercado de trabalho ficou estável em 64,4 milhões. A população ocupada cresceu 1,4 milhão de pessoas (+1,5%) e o contingente de desocupados encolheu em 4,8% (-658 mil pessoas), baixando para 13,1 milhões, contra 13,326 milhões nos três meses até julho. O pico do desemprego ocorreu no período março-maio, quando 13,771 milhões estavam desempregados.

Para o coordenador de emprego e salário do IBGE. Cimar Azeredo, não há dúvida de que o emprego vai crescer este ano, mas sua qualidade ainda é incipiente, própria de uma economia que passou pela mais profunda recessão de sua história, com a destruição de 3,4 milhões de empregos com carteira assinada no setor privado entre 2014 e o 1º semestre de 2017. A recuperação está se dando mais no lado dos empregos informais do que no de pessoas com carteira assinada (com contribuição de patrão e empregado para a Previdência e direitos sociais garantidos).

Na comparação com o trimestre junho-agosto de 2016, por exemplo, houve um aumento de 5,4% no emprego no setor privado sem carteira assinada, enquanto que os empregos com carteira tiveram queda de 2,2%. “Quase 70% dos empregos gerados agora são na informalidade. Aconteceu isso em todas as crises”, completou Azeredo.

Veja-se o quadro entre agosto de 2016 e o deste ano: de 34,176 milhões de trabalhadores com carteira assinada, o contingente encolheu para 33,412 milhões (-765 mil); os trabalhadores do setor privado sem carteira assinada aumentaram de 10,204 milhões para 10,751 milhões (+552 mil); os trabalhadores domésticos mantiveram-se estáveis (6,1 milhões, com perda de 11 mil empregos). Com o fechamento das vagas nas empresas, os trabalhadores tiveram que se virar por conta própria, cujo contingente aumentou de 22,2 milhões para 22,8 milhões (+612 mil pessoas), o mesmo ocorrendo entre os empreendedores/empregadores: salto de 3,9 milhões para 4,2 milhões (+267 mil pessoas).

Ou seja, se as empresas fecharam 765 mil vagas, os trabalhadores por conta própria ou montando pequenas firmas criaram 879 mil novas ocupações. Já o setor público encolheu o contingente em 99 mil postos, ficando em 11,4 milhões.

Baixa da inflação

A combinação de mais emprego sob precariedade só não foi mais danosa porque a inflação vem baixando fortemente, influenciada pela queda dos preços da alimentação, que dá folga aos orçamentos domésticos e já se reflete na recuperação das vendas do comércio. Assim, o rendimento médio real do trabalhador atingiu R$ 2.105 no trimestre até agosto, contra R$ 2.111 nos três meses até julho, e R$ 2.066 no mesmo período do ano anterior (+1,9%).

A decomposição dos aumentos salariais mostra que os trabalhadores que continuam com carteira assinada tiveram ganho real (descontada a inflação) de 3% no rendimento médio. Já os trabalhadores sem carteira assinada tiveram perda de 2,2%. Os trabalhadores do setor público, amparados pela estabilidade do emprego (na imensa maioria dos casos) tiveram aumento real zero. Os trabalhadores por conta própria tiveram perda real de 2,4% nos rendimentos. Já aquele que decidiu ser empreendedor teve o maior ganho: 8% em termos reais. Ou seja, quem sabe a crise aponte uma solução para muitos trabalhadores que sempre sonharam com um negócio próprio...

O Brasil vem engatando um processo de recuperação econômica em meio a juros declinantes, mas ainda escorchantes, e inflação em níveis baixos, que ajudam no comércio. Em agosto, o país teve criação líquida de 35.457 vagas formais de emprego, segundo o Ministério do Trabalho, no quinto resultado consecutivo positivo, situação puxada pelo setor de serviços. Nos últimos 12 meses, a massa salarial (rendimento x número de pessoas trabalhando) registrou aumento real (descontada a inflação) de 2,7%. O que pode ser um empuxo para a retomada da economia.

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Gilberto Menezes Côrtes Fri, 29 Sep 2017 00:00:00 +0000
Dados do BC indicam: as famílias voltaram às compras http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/6025-dados-do-bc-indicam-as-familias-voltaram-as-compras http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/6025-dados-do-bc-indicam-as-familias-voltaram-as-compras Dados do BC indicam: as famílias voltaram às compras

Economia começa a engrenar, pelo menos no segmento dos bens de consumo, liderado pelos automóveis

Os dados divulgados hoje pelo Banco Central sobre a evolução dos empréstimos do Sistema Financeiro em agosto não deixam dúvidas: a economia começa a engrenar. Pelo menos no segmento dos bens de consumo, liderado pelos automóveis. A produção de veículos aumentou mais de 25% este ano, comparada ao mesmo período de 2016 e o crédito – com juros ainda exorbitantes - voltou a ser o grande indutor do consumo das famílias.

Aliviadas no peso dos alimentos no orçamento – há um ano os alimentos subiam acima de 16% ao ano e agora têm queda superior a 5% e jogam a inflação geral abaixo dos 3% ao ano -, com a ligeira melhora do mercado de trabalho (quando os empregos criados já superam as vagas fechadas), e a ajuda do saque do FGTS, que permitiu liquidar dívidas pendentes, as famílias voltaram às compras. Em agosto, o crédito às famílias aumentou 0,6%. O que há muito não ocorria.

No mês passado, os financiamentos a veículos aumentaram 13,6% (o maior índice nos últimos cinco anos) e os financiamentos de outros bens cresceram 5,1% (também a maior taxa mensal em muitos anos). Vale lembrar que outro fator de estímulo ao consumo – o nível das taxas de juros – ainda não descera em agosto ao patamar mínimo: a taxa Selic, hoje, em 8,25% ao ano, estava em 9,25% e os juros bancários permaneciam elevados (23,2% ao ano no financiamento a veículos, com um mínimo de 30% de entrada e 100% do veículo em garantia!). Um risco para as famílias.

Na comparação com 2016 é que se percebe que as vendas de automóveis estão oxigenando a economia, diante do forte efeito multiplicador do segmento, cuja produção envolve imensa cadeia dos fornecedores. No trimestre as vendas cresceram 8%. Em 12 meses, a evolução foi de 13,9% (praticamente a mesma de apenas um mês), mas a taxa de crescimento acumulado no ano (frente a janeiro-agosto de 2016) aponta expansão de 21% nos financiamentos.

Nos demais bens de consumo para pessoas físicas (ou seja, as famílias), a taxa de 5,1% de crescimento em agosto representa quase toda a expansão do trimestre (+5,9%). Ainda assim, não foi suficiente para evitar uma taxa negativa de 3,9% no ano e de 7,9% nos últimos 12 meses. Os dados animadores de agosto levaram o Bradesco a apostar que a indústria vai crescer 2% este ano (após queda de 6,6% em 2016) e as vendas no varejo, após amargarem queda de 6,2% no ano passado, vão avançar 2,5%, garantindo um aumento de 0,7% no PIB.

Expansão na indústria e no comércio

Para 2018, o Bradesco aposta em crescimento de 3,5% na indústria e de 3% no comércio varejista. Com isso, o PIB pode crescer um mínimo de 2,5% em 2018 (muitas previsões já falam de 2,7% a 3% - a conferir). No crédito, o banco espera expansão de 1,2% este ano e de 5,5% em 2018. Detalhe: em 2016 houve queda de 3,5% no estoque de crédito (parte pela retração da relação R$/USS e parte pelo recuo da demanda mesmo). O banco aposta que a Selic cairá a 7% ao ano este ano - e até menos, fechando em 7% em 2018. Resta saber quanto cairão os juros dos financiamentos.

Voltando ao balanço do BC, o crédito total do sistema financeiro, incluindo operações com recursos livres e direcionados, somou R$ 3,047 trilhões em agosto, com quedas de 0,1% no mês e 2,2% em 12 meses (-0,9% e -2,1%, respectivamente, em julho). A carteira de pessoas jurídicas teve redução de 1% (saldo de R$ 1,437 trilhão) enquanto a de pessoas físicas aumentava 0,7% (saldo de R$ 1,610 trilhões).

A relação crédito/PIB declinou 0,1 p.p. no mês, situando-se em 47,1%, contra 50,4% em agosto de 2016. O maior índice foi registrado em dezembro de 2014, com os créditos alcançando 54,7% do PIB. Em dezembro de 2015, o percentual caiu para 53,7% e baixou para 49,6% do PIB em 2016. Com o agravante de que o PIB encolheu mais de 9% no período!

O crédito livre atingiu R$ 1,527 trilhão (+0,3% no mês e -1,5% em 12 meses). A carteira de empresas permaneceu estável no mês, com saldo de R$ 699 bilhões. O crédito direcionado somou R$ 1.520 bilhão (-0,6% no mês e -2,9% em 12 meses). As operações com pessoas físicas totalizaram R$ 782 bilhões (+0,7% no mês), com aumentos de 1,3% e 0,5% nos créditos rurais e imobiliários, respectivamente. O crédito a pessoas jurídicas recuou 1,9% no mês, para R$ 738 bilhões, refletindo maiores liquidações e menores concessões de financiamentos com recursos do BNDES, e liquidações de operações no crédito rural.

Considerados os segmentos de atividade econômica dos tomadores de crédito, destacaram-se as retrações no comércio (-3,9%, saldo de R$ 238 bilhões), na indústria de construção (-2,4%, R$ 89 bilhões) e em serviços industriais de utilidade pública (-0,8%, R$ 202 bilhões). Regionalmente, consideradas as operações acima de R$ 1 mil, foram observadas retração do saldo alocado no Sudeste (-0,3%, R$ 1,605 trilhão) e expansões nas demais regiões, principalmente no Sul (+0,4%, R$ 549 bilhões) e no Nordeste (+0,2%, R$ 399 bilhões).

Custo do crédito

O custo médio das operações de crédito ativas, aferido pelo Indicador de Custo do Crédito (ICC), recuou 0,2 p.p. em agosto, situando-se em 22,1% a.a. (-0,8 p.p em 12 meses). No crédito livre, o indicador recuou 0,4 p.p. no mês e 2,3 p.p. em 12 meses, situando-se em 36,7%, permanecendo estável em 8,9% a.a. no crédito direcionado.

A taxa média de juros, compreendendo os segmentos com recursos livres e direcionados, alcançou 28,5% a.a. em agosto (-0,5 p.p. no mês e -4,5 p.p. em doze meses). No crédito livre, a taxa média recuou 1,0 p.p. no mês, situando-se em 45,6% a.a.; no crédito direcionado, redução de 0,1 p.p., para 10% a.a.

No crédito às famílias, a taxa média situou-se em 35,6% a.a. (-0,9 p.p no mês e -6,6 p.p. em 12 meses). Os juros do cartão de crédito rotativo regular recuaram de 10,3% a.m., em julho, para 10,2% a.m., em agosto, mantendo a tendência declinante desde o início da vigência das medidas que alteraram o funcionamento do cartão de crédito rotativo (em março de 2017 estavam em 14,9% a.m.). No cartão parcelado e no rotativo não regular, as taxas médias de juros ficaram estáveis em 8,3% a.m. e 16,2% a.m., respectivamente. Em agosto, a taxa de juros do cheque especial registrou ligeira redução, para 12,6% a.m. , contra 12,7% a.m. em julho.

Detalhe: a inflação em 12 meses, que já estava na faixa de 2,7% em agosto, caiu para 2,56% em setembro. Apesar dos juros escorchantes, comparados à inflação medida pelo IPCA, a taxa de inadimplência ficou estável pelo 3º mês consecutivo em 3,7%. A estabilidade ocorreu tanto nos créditos às famílias (4,0%) e às empresas (3,4%), quanto nos segmentos livre (5,6%) e direcionado (1,8%).

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Gilberto Menezes Côrtes Thu, 28 Sep 2017 00:00:00 +0000
CEF: Minha Casa, Minhas Dívidas http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/6022-cef-minha-casa-minhas-dividas http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/6022-cef-minha-casa-minhas-dividas CEF: Minha Casa, Minhas Dívidas

Banco misturou alhos com bugalhos e iludiu o público como se, de fato, sua performance financeira fosse excelente. Melhora substancial do resultado não veio de qualquer inovação na gestão.

A Caixa Econômica Federal divulgou esta semana, cheia de orgulho, que o lucro líquido do 1º semestre de 2017 alcançou os R$ 4,074 bilhões, um aumento de 69,2% sobre igual período de 2016. E destacou que o índice de inadimplência baixou para 4,49%, contra 6,19% em junho de 2016, louvando as mudanças operacionais em curso como responsáveis pela melhora no balanço. Só que não. 

Do mesmo modo que só explicou discretamente - em nota anexa do Conselho de Administração - que uma comissão interna estava averiguando, desde agosto, com ajuda do escritório Pinheiro Neto, Advogados, o envolvimento de funcionários e ex-dirigentes em quatro grandes operações de fraudes investigadas pela Polícia Federal e a Força Tarefa da Lava Jato desde 2015 (A Origem, Cui Buono, Sepsis e Patmos). A CEF misturou alhos com bugalhos e iludiu o público como se, de fato, sua performance financeira fosse excelente. 

Na verdade, lendo com atenção as demonstrações financeiras, fica patente que a melhora substancial do resultado não veio de qualquer inovação na gestão. O que houve foi uma brutal redução (R$ 6,087 bilhões) nos prejuízos com derivativos: no 1º semestre de 2016 as perdas foram de R$ 7,762 bilhões em swaps (R$ 3,8 bilhões) e operações a futuro (perdas de R$ 3,9 bilhões); no 1º semestre de 2017 as perdas foram de R$ 1,675 bilhão (R$ 248 milhões em swaps e R$ 1,426 bilhão em futuro). 

Outra questão a ser desmistificada é a propalada baixa inadimplência. Como tinha 58,9% (R$ 421,4 bilhões) da carteira de empréstimo (R$ 715,9 bilhões) concentrada em operações de crédito imobiliário, onde o nível de inadimplência é baixo (1,64%), a CEF mascara a real deterioração de sua carteira ao informar que a inadimplência caiu para 4,49%. 

Comparado ao 1º semestre de 2016, os empréstimos da carteira comercial encolheram 6,6%. Então, é evidente que, mesmo freando as concessões de empréstimo (febre durante o governo Dilma), a gestão da CEF no governo Temer (sob a condução do mesmo presidente Gilberto Occhi) não conseguiu impedir um alto grau de inadimplência, que ficou em 5,5% nas pessoas físicas e em 4,9% nos empréstimos às pessoas jurídicas. Para um total de R$ 699,9 bilhões emprestados (a maior carteira do mercado), a CEF estava com R$ 18,491 bilhões com atrasos acima de 180 dias. 

O BNDES, que empresta a grandes empresas ou faz repasses de linhas de crédito para instituições financeiras (que arcam com os riscos), sempre se vangloriou de ter níveis de inadimplência bem inferiores aos da média do mercado bancário. Mas na forte crise causada pela recessão e pelo escândalo da Lava Jato, que colheu em cheio alguns de seus grandes tomadores, o banco de desenvolvimento estatal viu os seus níveis de inadimplência (ainda bem inferiores à média do mercado) aumentarem muito acima dos do Sistema Financeiro Nacional. Para empréstimos de R$ 330,6 bilhões, o BNDES tinha R$ 6,089 bilhões com atrasos acima de 180 dias. 

Inadimplência em bancos privados 

A título de comparação, o Itaú tinha índice de inadimplência geral de 3,9% em junho último, o Santander, de 3,70% e o Bradesco, de 4,94%. Mas o índice das pequenas e médias empresas no Bradesco era de 7,2% (8,6% em dezembro) e o das pessoas físicas, de 6,21% (6,9% em dezembro). 

O Banco do Brasil que, por ser estatal, supostamente é vítima das mesmas pressões políticas que geram operações ruinosas como as investigadas no âmbito da CEF, tinha inadimplência de 3,56%. Para uma carteira de R$ 629,9 bilhões em empréstimos, R$ 18,525 bilhões (2,9%) estavam a descoberto há mais de 180 dias. 

Entre os bancos privados, a situação mais dramática, de acordo com os balanços semestrais consolidados pelo Banco Central, é a do Bradesco. Para uma carteira de R$ 413 bilhões em empréstimos, o banco da Cidade de Deus tinha R$ 20 bilhões em crédito com atraso há mais de 180 dias (ou seja, passível de fortes provisões para cobertura de calotes eventuais). 

No Itaú, com créditos de R$ 528,7 bilhões, as operações com atraso acima de 180 dias somavam R$ 12,3 bilhões. No Santander, para um montante de R$ 255,6 bilhões de empréstimos, R$ 7,764 bilhões (3%) estavam atrasados há mais de 180 dias. O Bradesco tentou melhorar sua situação cedendo cerca de R$ 20 bilhões de créditos a outras instituições financeiras, dentro do mecanismo de cessão de crédito incentivado pelo Banco Central. 

Embora com posição não tão confortável na inadimplência, a Caixa continuou auferindo rendas decorrentes da política de compra de créditos de outras instituições financeiras, em especial bancos de médio e pequeno portes, com menos liquidez na praça. No 1º semestre de 2017, tivera renda de R$ 42,3 milhões em créditos de cinco bancos: Cruzeiro do Sul, BMG, BMB, Bonsucesso e Daycoval, contra R$ 34,6 milhões dos mesmos no 1º semestre de 2016. A maior fatia foi do Daycoval: R$ 30,6 milhões.

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Gilberto Menezes Côrtes Wed, 27 Sep 2017 00:00:00 +0000
Quem vai pagar os prejuízos de Janot? http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/5950-quem-vai-pagar-os-prejuizos-de-janot http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/5950-quem-vai-pagar-os-prejuizos-de-janot Joesley Batista, dono da JBS

As trapalhadas do Procurador Geral da República na delação feita por Joesley Batista impediram uma recuperação mais forte da economia

Cena 1 – 5 de setembro de 2017, no dia seguinte ao anúncio do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de abrir investigação para avaliar a omissão de informações nas delações premiadas do dono da JBS, Joesley Batista [divulgadas dia 17 de maio, juntamente com as conversas gravadas por Joesley com o presidente Michel Temer, dia 7 de março, no Palácio do Jaburu], o Ibovespa chegou a atingir, às 10h20, 73.180 pontos (desde 2010 o índice não alcançava os 73 mil pontos), iniciando um movimento de realização de lucros em seguida. As ações da JBS chegam a cair mais de 8%.

Cena 2 – 18 de maio, no dia seguinte à divulgação, pelos veículos das Organizações Globo – primeiro, às 19h10 do dia 17 de maio, na coluna de Lauro Jardim no jornal O Globo e em seguida nos sites das OGs (G1 e Globoonline), além da Globonews e do Jornal Nacional –, o Ibovespa teve a maior queda do ano, de 8,80%. O recuo das ações foi tão acentuado na primeira meia hora que o pregão eletrônico precisou ser interrompido (circuit break) para devolver serenidade aos negócios. A maior queda do dia foi das ações da JBS. Pivô do escândalo que paralisou o andamento das reformas [econômicas, fiscais, previdenciária e política] e interrompeu o processo de recuperação da economia e do emprego, as ações da JBS tiveram o maior declínio do dia, que foi de 10%.

Cena 3 – 16 de maio de 2017, o Ibovespa sobe 0,31% (6º pregão seguido de alta) e atinge a maior cotação do ano: 68.684 pontos. Na véspera da divulgação bomba, as ações da JBS lideraram as baixas, com decréscimo de mais de 8%. O desempenho foi atribuído à divulgação, dia 15 de maio, do resultado de 1º trimestre, abaixo do esperado por analistas: um lucro líquido de R$ 422,3 milhões. Hoje, conclui-se que as coincidências das datas parecem ter sido intencionais, num jogada dos irmãos Batista para tentar sair do corner de cinco ações da PF. A Comissão de Valores Mobiliários, além dos movimentos suspeitos na venda de R$ 383 milhões em ações da JBS pelos controladores, também investiga pesadas operações de venda de dólar futuro pelos irmãos Batista, na véspera da divulgação das conversas filtradas pela PGR.

Percebe-se neste breve resumo, que a trajetória de recuperação do índice Bovespa teria sido bem mais acentuada e consistente se as trapalhadas do PGR, Rodrigo Janot, não tivessem deixado a economia e o país no limbo. Com base nos levantamentos da ADVFN, desde 29 de dezembro de 2016, as ações da JBS caíram 30%. Já o Ibovespa subiu mais de 20%. Até agosto havia ascendido 17,4%. Algumas ações valorizaram mais de 50% no ano. Quanto teria subido sem o acordo fajuto da PGR?

A empresa, controladora da Seara, era alvo de cinco investigações da Lava Jato e da PF quando seu presidente, Joesley Batista, agendou o encontro fatídico com o presidente Temer, industriado pelo então procurador da PGR, Marcelo Miller, que já recebia dinheiro do grupo J&F (holding dos irmãos Batista, que controlava a JBS, Alpargatas, Vigor, Eldorado, Flora, Banco Original, termelétrica-MS e construtora, [império que prosperou com as facilidades de crédito do BNDES e CEF nas gestões petistas]), mas só deixou oficialmente o MPF dia 5 de abril, sendo contratado quase em seguida pelo escritório Trench, Rossi & Watanabe, que representava a JBS e que na época esteve envolvido na negociação do acordo de leniência da J&F. Alpargatas, Vigor e Eldorado já foram vendidas pelo J&F, para fazer caixa.

Depois de denunciado na CCJ pelo advogado de Temer, Antonio Mariz de Oliveira, Miller foi desligado do escritório, que também se retirou do caso. O acordo de delação – no qual a PGR aceitou inédita isenção punitiva para os irmãos, em troca da incriminação do presidente da República – pode ser revisto. Pelo acerto, o grupo J&F se compromete a pagar multas de R$ 10,3 bilhões em 25 anos, sem qualquer imputação criminal aos controladores.

Desempenho da indústria

Do ponto de vista da economia, o IBGE divulgou hoje o desempenho da indústria em julho, com surpreendente alta de 0,8% (o mercado esperava +0,5%; o Bradesco previa estabilidade). O aumento segue-se ao fraco desempenho de junho (elevação de apenas 0,2%), em consequência do impacto do escândalo das fitas gravadas, divulgado na noite de 17 de maio. Vale recordar que a produção indistrial crescera 1,2% em abril e em maio. O Departamento Econômico do Itaú já considera que o número de junho será revisto para + 0,6%.

Assim, no acumulado do ano, em vez do aumento de 0,8%, poderemos ter alta de 1% na indústria nos primeiros sete meses do ano. E teríamos mais, não fosse o desastrado arranjo do PGR. O Itaú revisou ontem o incremento do PIB de 2017 de 0,3% para 0,8%, mantendo o crescimento de 2018 em 2%. Só que, antes da crise provocada por Janot, o Itaú previa elevação de 1% para o PIB de 2017 e de 2,7% para 2018.

A trajetória do emprego vinha acusando, pelo Caged, consistente recuperação na criação de novas vagas com carteira assinada, pela confiança dos mais diversos setores da economia com o andamento das reformas, sobretudo a da Previdência, após a primeira rodada de aprovação da Reforma Trabalhista [com o escândalo, esta só foi aprovada em agosto e a da Previdência segue emperrada, como as demais, gerando crescentes aumentos do déficit público].

Em abril houvera o mais animador resultado em vários meses, com a criação de 59,9 mil vagas líquidas. A recuperação em maio murchou a partir do dia 18 (houve queda para 34 mil vagas no mês). Em junho, nova baixa para apenas 9,8 mil vagas, até que julho registrou nova recuperação, com 35,9 mil vagas. A crise da delação pode ter custado 100 mil vagas.

Ninguém é ingênuo de acreditar que qualquer reforma da Previdência produza resultados antes de dois a três anos. Mas a dinâmica do déficit e das taxas de juros seria outra. Na reunião de 31 de maio, tudo se desenhava para o Copom baixar a Selic em 1,25 p.p. para 10%. Com a crise, o Copom puxou o freio e manteve o ritmo de 1 p.p. de queda, baixando a Selic para 10,25%. Tudo indica que amanhã ela caia para 8,25%. O Itaú aposta que ela termina 2017 em 7,25% ao ano, com novo corte no começo de 2018, para 7%. Já as Top 5 (as cinco insituições que mais acertam as pesquisas Focus do Banco Central sobre inflação e juros) apostam que a Selic fecha em 7% este ano e se mantém assim até o final de 2018. Fecho com as Top 5.

Não me canso de defender aqui maior ousadia do Copom para baixar os juros (o erro vem do excesso de cautela desde setembro de 2016). Juros menores são um alívio para as contas públicas e orçamentos familiares, bastante onerados pelos juros reais elevadíssimos (taxas de mais de 300% ao ano no cartão de crédito, contra uma inflação em 12 meses abaixo de 3%). O quadro, sem dúvida, seria outro sem as flechadas perdidas de Janot, que ainda promete novas ações até o fim de seu mandato à frente da PGR, dia 18. Mas quem vai pagar os prejuízos que causou?

 

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Gilberto Menezes Côrtes Tue, 05 Sep 2017 00:00:00 +0000
Consumo das famílias cresce e segura o PIB http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/5936-consumo-das-familias-cresce-e-segura-o-pib http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/5936-consumo-das-familias-cresce-e-segura-o-pib Consumo das famílias cresce e segura o PIB

Economia avançou 0,2% no segundo trimestre frente ao primeiro, tornando página virada a mais longa recessão da história do País

A melhor informação do IBGE, ao anunciar hoje que o Produto Interno Bruto cresceu 0,2% no 2º trimestre frente ao primeiro, quando houve expansão de 1% (a primeira em oito trimestres, puxada pela alta de 11,5% da agropecuária), foi a de que o consumo das famílias cresceu 1,4% (após nove trimestres seguidos de queda; no 1º trimestre tinha sido de 0%).

A retomada do consumo das famílias (que representa 64% da demanda) foi influenciada pelos seguintes fatores: forte queda da inflação, sobretudo dos alimentos, que produziu aumento real (descontada a inflação de 3,6% do IPCA em 12 meses) de 2,3% na massa salarial; baixa (ainda tímida) dos juros; e a liberação do FGTS, que destravou o consumo e levou o comércio a liderar o crescimento trimestral (+1,9%).

Dois trimestres seguidos de PIB positivo tornam página virada a mais longa recessão da história. Os dados do semestre mostram crescimento zero sobre igual período de 2016 (quando apenas a agropecuária avançou) e a taxa acumulada em 12 meses ainda é negativa em 1,4%, mas já apresenta distanciamento frente à queda recorde de 4,8% no 2º trimestre de 2016 (quando Dilma sofreu o impeachment). Desde então, há lenta recuperação na economia. Os resultados do 2º trimestre (que superaram as previsões do mercado: média de +0,1%; o Itaú esperava 0% e o Bradesco -0,3%) já garantem crescimento mínimo de 0,4% do PIB em 2017, assinala a LCA Consultores.

Na decomposição do resultado do 2º trimestre, com ajuste sazonal, fica claro que ainda falta muito para uma recuperação consistente: a Agropecuária (que representa 5,5% do PIB) registrou variação nula, após os 11,5% do 1º trimestre; a Indústria (21,2% do PIB) teve queda de 0,5% e os Serviços (73,3% do PIB) cresceram 0,6%.

Na Indústria, houve recuo de 2,0% na Construção e de 1,3% na atividade de Eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana. A Indústria Extrativa mineral cresceu 0,4%, graças à maior produção de petróleo, gás e minério de ferro, e a Indústria de Transformação ficou praticamente estável (+0,1%).

Nos Serviços, a alta foi liderada pelo Comércio (1,9%), seguido pelas Atividades imobiliárias (+0,8%), os Outros serviços (+0,8%) e o setor de Transporte, armazenagem e correio (+0,6%). Os Serviços de informação caíram 2,0% e as atividades de Administração, saúde e educação pública declinaram -0,3%, enquanto as atividades de Intermediação financeira e de seguros tiveram queda de 0,2%. Quanto ao setor externo, as Exportações de bens e serviços tiveram alta de 0,5%, ao passo que as Importações caíram 3,5% em relação ao 1º trimestre

Recuperação precária no mercado de trabalho

Por diversas leituras, o vácuo deixado pela recessão iniciada no 2º trimestre de 2014 ainda está longe de ser preenchido. A recuperação do mercado de trabalho ocorre de forma precária, com a retomada, inicial, dos empregos sem carteira assinada e dos trabalhos por conta própria, o que garante recomposição de renda às famílias.

Tomando em conta o ano de 1995 como base 100, pelos dados do IBGE , na série encadeada do PIB, o ápice foi registrado no 3º trimestre de 2013, com 178,4 pontos. No 2º trimestre de 2017, o índice do PIB ficou em 163,3 pontos. Uma queda de 8,46%. Entretanto, o fundo do poço tinha sido no 1º trimestre: 160,6 pontos, o que equivalia a um encolhimento de 10% no período. Desde então, houve recuperação de 1,68%.

Após a crise financeira mundial de agosto de 2008 ter cortado a via de crescimento via exportações, o segundo governo Lula apostou todas as fichas no crescimento via ênfase no consumo interno, mediante facilidades de crédito às famílias. De fato o consumo das famílias foi o motor do PIB, tendo atingido seu ápice no 4º trimestre de 2014, quando o índice de consumo das famílias (tendo como base 100 o ano de 1995) chegou a 192,5 pontos [o que explica a reeleição da ex-presidente Dilma, pois a população vivia a falsa euforia do crescimento e do bem-estar, com o congelamento prolongado das tarifas de serviços públicos, energia - tiveram queda de 18% em 2013 - e combustíveis]. Recuperar a dinâmica é impossível a curto e médio prazo (até 2022).

Quando as famílias começaram a perder renda, assoladas pelo tarifaço dos preços administrados de 2015 (a começar pela alta de 45% na energia elétrica) e pela especulação com os preços dos alimentos e a escalada do desemprego em consequência da recessão que se abateu sobre o país diante da perda da renda dos endividados, verificou-se que o recuo dos indicadores das famílias foi também maior do que o da média do PIB, realimentando a recessão.

Queda acumulada no consumo

Enquanto a queda acumulada do PIB foi de 10% no 1º trimestre de 2017, a diminuição do consumo das famílias chegou a 14,2% desde o 4º trimestre de 2014. Neste 2º trimestre, houve expansão de 2%, mas a perda acumulada ainda é de 12,52% frente a 2014. Há muito terreno a recuperar, mas a demanda de crédito cresce metade da inflação, confirmando que ainda é baixo o nível de consumo.

Outro indicador animador foi que na comparação trimestral contra o mesmo período do ano anterior, após 12 trimestres consecutivos com resultados negativos, o PIB do 2º trimestre de 2017 teve variação positiva de 0,3% em relação a igual período de 2016.

Mas a recente abertura de painel na Organização Mundial de Comércio, a pedido dos países da União Europeia e do Japão – para condenar os subsídios ao desenvolvimento de setores industriais nos governos Lula e Dilma (indústria automobilística, informática e determinados segmentos de inovação) –, pode representar obstáculos à recuperação do setor industrial, notadamente das montadoras de automóveis e fabricantes de autopeças.

A exportação – diante do consumo interno ainda tão contraído – tinha sido a saída de alguns setores e as fábricas de automóveis e caminhões já se preparam para retomar contratações, abandonando o sistema de lay-off (criado no governo Dilma). No 2º trimestre, segundo o IBGE, as exportações de bens que tiveram os maiores aumentos foram de veículos automotores, petróleo e gás natural, produtos agropecuários e papel e celulose.

Na pauta de importações, as quedas mais relevantes ocorreram em máquinas e equipamentos, equipamentos de transporte (exceto veículos automotores), minerais metálicos, máquinas, aparelhos e materiais elétricos, e produtos de metal, indicando que a alta ociosidade da economia ainda inibe a retomada dos investimentos, por desnecessários em uma economia a meia bomba.

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Gilberto Menezes Côrtes Fri, 01 Sep 2017 00:00:00 +0000
A lenta e sofrida recuperação do emprego http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/5934-a-lenta-e-sofrida-recuperacao-do-emprego http://executivosfinanceiros.com.br/gilberto-menezes-cortes/5934-a-lenta-e-sofrida-recuperacao-do-emprego A lenta e sofrida recuperação do emprego

Taxa de desocupação recua para 12,8% no trimestre de maio a julho, menor que a esperada pelo mercado, conforme a PNAD do IBGE

A taxa de desemprego no Brasil recuou para 12,8% no trimestre maio-junho-julho, revelou hoje o IBGE na PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) trimestal de julho. O resultado é bem melhor do que os 13,3% esperados pelo mercado (o Bradesco previa 13%) e marcou o primeiro crescimento na taxa interanual após 24 meses de queda contínua. Porém, o resultado indicou que a melhora do emprego com carteira assinada (33,340 milhões no trimestre) ainda está longe de recuperar as 3,226 milhões de vagas perdidas em relação ao ápice de 36,666 milhões de trabalhadores formalizados no trimestre maio-junho-julho de 2014.

A gestão Dilma desempregou mais de 2,2 milhões de trabalhadores até o impeachment, em maio de 2016. Desde a posse do definitiva do presidente Temer, em 31 de agosto de 2016, foram fechadas 1,5 milhão de vagas com carteira assinada. No último trimestre, na comparação com o mesmo trimestre do ano anterior, houve perda de 1 milhão de vagas com carteira assinada, com forte influência de -749 mil vagas nas atividades rurais e extrativistas, na perda de 623 mil vagas na construção civil e de outras 133 mil vagas de empregados domésticos.

Em contrapartida, foram criadas 683 mil vagas nas atividades de alojamento e alimentação e mais 270 mil vagas na indústria. A administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais gerou +592 mil vagas. Mas o que mitigou o desemprego mesmo foi o aumento das atividades por conta própria (sem carteira assinada). Nada menos que 566 mil pessoas passaram a fazer parte do mercado informal (o que lhes garante alguma renda) em comparação ao mesmo trimestre de 2016.

Na análise mais recente, nota-se ligeiro aquecimento do mercado de trabalho (incluindo o informal, claro) desde o começo do 2º trimestre. Em abril, a taxa de desemprego atingiu seu nível máximo: 13,7%. Contrariando todas as previsões (Itaú e Bradesco estimavam a taxa média de 2017 acima de 14% no começo deste ano), o índice desceu para 12,8%, uma queda de 0,9 ponto percentual em quatro meses. Em relação a três trimestre anteriores, a recuperação é mais notável: + 1.439 mil pessoas ocupadas.

A decomposição mostra que é o mercado informal que predomina: 468 mil pessoas passaram a trabalhar no setor privado sem carteira assinada (ou seja, não há recolhimento de contribuições para o INSS do empregador e possivelmente do trabalhador); outras 351 mil pessoas passaram a trabalhar por conta própria (também com perda para a Previdência).

O setor público, que vive em déficit fiscal profundo, é que contratou mais gente: 426 mil pessoas. Um contraste tremendo com os minguados 54 mil novos empregos com carteira privada abertos pelo setor privado, segundo o IBGE. Sem avanço no emprego formal, as contas fiscais não melhoram.

Pelas estatísticas do IBGE, a dinâmica do mercado virou no último trimestre e superou as previsões. No período houve aumentos significativos nas categorias: Indústria Geral (3,7% ou mais 425 mil pessoas), Comércio, Reparação de veículos automotores e motocicletas (1,3% ou mais 226 mil pessoas), Administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais (3,9% ou mais 592 mil pessoas) e Outros serviços (4,1% ou mais 175 mil pessoas).

Recuperação quantitativa

Em razão da distribuição das vagas, o coordenador do IBGE para a área de emprego e renda, Cimar Garcia, pediu cautela: “O cenário apresentou melhora, mas a maior parte disso veio da informalidade. Houve aumento em comércio, alojamento, alimentação, outros serviços muito aderentes à informalidade”, explicou. “Há sem dúvida uma recuperação acontecendo que se forma sobre uma plataforma informal. Temos recuperacão quantitativa de postos de trabalho, mas em termos qualitativos essa melhora é questionável”, completou Garcia.

Os números da Pnad Contínua mostram que o Brasil tem agora 13,326 milhões de desempregados. Nos três meses até junho, eram 13,5 milhões de pessoas sem trabalho. O IBGE informou ainda que o rendimento médio real (descontada e inflação) do trabalhador foi a R$ 2.106 no trimestre até julho, um aumento de 0,33% no período. A massa salarial (o montante de salários pagos x a população trabalhadora) subiu para R$ 186,127 milhões, com avanço de 1,3% sobre o trimestre fevereiro-março-abril. Em relação ao mínimo de R$ 189,558 milhões registrado no período maio-junho-julho de 2016, houve recuperação de 3,08%, mas ainda carrega uma queda de 2,93% em relação ao ápice de R$ 191,755 milhões no período novembro de 2014-janeiro-fevereiro de 2015.

Amanhã, o IBGE divulga o resultado do PIB do 2º trimestre (estimativas entre crescimento 0% e +0,2%), quando será possível perceber os setores que estão reagindo após a agropecuária ter crescido 14% no 1º trimestre e assegurado taxa final de +1,% frente ao 4º trimestre de 2016. É bom que o resultado dê motivos para o Copom acelerar a baixa de juros, para ativar o consumo e as encomendas do comércio à indústria para as vendas de fim de ano. 

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Gilberto Menezes Côrtes Thu, 31 Aug 2017 00:00:00 +0000