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Negócios com startups deslancham no Cubo

Lineu Andrade, diretor de Tecnologia do Itaú Unibanco e responsável pelo Cubo Lineu Andrade, diretor de Tecnologia do Itaú Unibanco e responsável pelo Cubo Fotos: Edu Bandelli

Espaço de apoio à inovação aberta mantido pelo Itaú e pela Redpoint registra forte impulso no número de contratos fechados e nos volumes de receitas, sobretudo nos últimos dois anos

Fundado em setembro de 2015, o Cubo, hub de apoio à inovação aberta criado e mantido pelo Banco Itaú em parceria com a Redpoint eventures, vivencia um robusto processo de expansão. Ao dar suporte a startups de ponta de várias regiões do país, atuantes nas mais distintas áreas, o ecossistema coleciona vistosas cifras em cima dos negócios realizados, sobretudo nos últimos dois anos.

Desde a inauguração do espaço, hoje localizado na Vila Olímpia, em São Paulo (SP), o número de contratos firmados entre as startups e as grandes empresas  superou a casa dos 1.100 até julho do ano passado. Para se ter uma dimensão da rápida evolução dos negócios, em 2017 foram celebrados 370 contratos, ao passo que, somente entre janeiro e julho de 2018, o total foi de 720. 

Em termos de faturamento, o montante angariado pelos empreendedores residentes ultrapassou R$ 475 milhões desde o início das atividades até julho/2018. No ano retrasado inteiro, o volume contabilizado tinha sido de R$ 110 milhões, enquanto que, apenas de janeiro até julho de 2018, o valor bateu em R$ 230 milhões. 

Foram investidos, também desde a abertura do hub até julho/2018, mais de R$ 200 milhões nas startups. E, somente no período janeiro-julho de 2018, injetou-se uma soma de R$ 50 milhões, o mesmo volume de recursos de todo o ano de 2017. 

Mais de três mil empregos brotaram no seio dos empreendimentos acantonados no Cubo. Para arregimentar colaboradores e formar os times, divulgaram-se mais de 4.400 postos de trabalho, tendo sido criada uma plataforma de recrutamento, a Cubo Explora, que já registra a passagem de mais de 24 mil candidatos.

Atualmente, um grupo de 18 parceiros auxilia na manutenção e desenvolvimento do espaço, fomentando as interações entre as startups e o mundo corporativo. São eles: Dasa, Kroton, brMalls, Rede, Accenture, Schneider, Sapore, Cisco, CI&T, AWS, TIM, Saint-Gobain, B3, Coca-Cola Brasil, Groupe PSA, iugu, GitHub e Salesforce.

“Estes dados são muito significativos e traduzem todo o potencial do empreendedorismo tecnológico no mercado brasileiro”, comemora Lineu Andrade, diretor de Tecnologia do Itaú Unibanco e responsável pelo Cubo, em entrevista concedida ao portal de Executivos Financeiros. “Os empreendedores crescem a taxas elevadas em nosso ecossistema, estabelecendo uma relação de ganha-ganha muito importante para todos os participantes”, complementa.

Para ele, existe hoje uma forte demanda reprimida por inovações, de um lado, e uma fértil multiplicação de ótimas ideias, de outro. É neste cenário que o banco procurou, por meio do Cubo, erguer pontes entre o mercado e os jovens entrantes.

O resultado, salienta o entrevistado, é que “grande parte das melhores startups estão conosco”. Para atestar a qualificação dos participantes incorporados ao hub, Andrade lembra que, até agora, somente dois deles encerraram as atividades. “Considerando-se que se trata de uma seara de altíssimo risco, trata-se de um índice de assertividade absurdamente elevado”, pontua.

Ao fim e ao cabo, em razão da performance obtida, o Cubo acabou por se transformar em uma marca de renome. Uma startup que se apresenta como integrante do hub, ressalta o diretor, adquire status no mercado.

Outro indicador de atratividade é que, todos os dias, entre duas e quatro corporações de peso visitam as instalações, em geral representadas por seus C-levels, acelerando e qualificando os contatos com os empreendedores no local.

Em virtude destes atributos, o ecossistema formado inspirou o surgimento no mercado de outros espaços com perfil similar, fato que, conforme Andrade, é enxergado com muito orgulho pelos organizadores do Cubo.

Diferenciais do projeto

O êxito da empreitada do Itaú e da Redpoint, a juízo do executivo, se deve a alguns diferenciais básicos com que ela foi concebida e implantada. Antes de mais nada, buscou-se, como proposta de valor, posicionar no mesmo ambiente os principais agentes – startups, stake holders, investidores, grandes empresas e universidades –, o que veio a fortalecer os relacionamentos, a colaboração e o coworking, turbinando então os negócios.

Outro traço distintivo reside na constituição do Cubo como uma plataforma aberta. “Mesmo sendo o founder, o Itaú não tem exclusividade sobre nenhuma startup. Não detemos nenhuma propriedade sobre o capital intelectual delas. Tomamos desde o início esta decisão de não termos uma conexão direta com elas”, sublinha o entrevistado.

A diversidade de atuação dos microempreendedores também representou um relevante trunfo, presente desde a materialização do ecossistema. Hoje, são desenhadas ali soluções para mais de 14 segmentos da economia, como RH, agribusiness, finanças, educação, finanças, analytics, logística, entre outros. “Construímos uma plataforma aberta e procuramos qualquer boa ideia, independentemente do segmento”, prossegue Lineu Andrade.

No âmbito desta estratégia, com a evolução das discussões internas a respeito das demandas mais promissoras, os gestores optaram por estruturar cinco grandes segmentos: educação, saúde, finanças, indústria e varejo. “Visamos impulsionar a comercialização de soluções nas verticais que achávamos que precisavam de maior incentivo. E isso está dando muito certo”, garante ele.

Na prática, o Cubo funciona como um radar do mercado, atrás de soluções que podem ser empregadas tanto nos processos-meio quanto nos processos-fim da organização Itaú, tendo como foco a melhora da experiência dos clientes.

Um exemplo concreto de aplicabilidade é a parceria celebrada com a startup Blue 365, destinada a ajudar na negociação com clientes inadimplentes, que podem fazer simulações na plataforma digital sem precisar conversar com ninguém do banco.

Evolução do ecossistema

Em sua origem, o Cubo foi resultado de um processo de elaboração conceitual e prático que incluiu estudos prévios sobre projetos similares efetivados no Exterior. Na realidade, com mais dúvidas do que certezas, conforme relata Andrade, foi criada inicialmente uma prova de conceito, materializada no “Cubinho”, hub de dimensões bem mais modestas.

Com o passar do tempo, e à medida que as atividades ganhavam massa crítica, o espaço disponível ficou acanhado para contemplar todos os participantes, o que redundou na migração para o local que hoje é chamado de “Cubão”, na Vila Olímpia.

Assim, se o antigo “Cubinho” acomodava 55 startups e 250 pessoas, a nova sede possui mais de 20 mil m², 14 andares e capacidade para abrigar mais de 1.250 pessoas e 92 startups residentes. O público visitante é de aproximadamente duas mil pessoas por dia.

Diante do crescimento, muitas grandes empresas acabaram aderindo ao Cubo, de sorte que atualmente elas perfazem, como já foi mencionado, um total de 18, impulsionando o empreendedorismo e tirando proveito do contato mais estreito com as iniciantes.

Ao longo do tempo, foram avaliadas em torno de 1.500 startups candidatas, das quais 92 fincaram pé no ecossistema. Além delas, há mais 230 apoiadas pela Cubo Digital, plataforma direcionada às microempresas de fora de São Paulo, espalhadas por 10 capitais do País. Nessa condição, elas estão credenciadas a acessar conteúdos especializados, softwares e assistência para amadurecerem seus projetos.

Ainda no bojo do Cubo Digital, funciona também o programa Desafio das Corporates. Por meio dele, uma empresa mantenedora pode colocar um problema a ser resolvido, mobilizando-se as startups para que desenvolvam soluções para este problema, estreitando-se a conexão entre os dois lados.

São realizados na sede numerosos eventos (workshops, palestras e encontros), sempre ligados ao ambiente de empreendedorismo, na média de três ou quatro por dia. Para se ter uma noção da expansão verificada, somente no período de janeiro a julho de 2018, foram organizados cerca de 600 eventos, contra 700 em todo o ano de 2017.

Outro benefício incidiu sobre o processo de atração e seleção de talentos para ocuparem vagas tanto nas startups quanto no Itaú. “A quantidade de pessoas interessadas nestes postos de trabalho é inacreditável. O fato de estarmos na ponta da inovação atrai muitas pessoas. O banco sempre teve uma marca tecnológica muito forte, o que se viu reforçado por esta imagem diretamente ligada à inovação”, observa o entrevistado.

O enraizamento das atividades, assinala Lineu Andrade, acabou por se refletir nas práticas, nos hábitos e no vocabulário cotidianos de toda a comunidade reunida. Hoje, ao contrário do que se verificava nos primórdios, palavras como “pitch” e “MVP” (Minimum Viable Product), entre outras, se tornaram jargões populares.

HUB IMPULSIONA TRANSFORMAÇÃO DIGITAL NO ITAÚ

A operação do Cubo terminou por desembocar em uma série de transformações no próprio coração do Itaú, dinamizando o processo de inovação interna e o desenho de produtos e serviços, até alcançar a esfera comportamental dos colaboradores.

A primeira mudança se deu na ampliação da capacidade de experimentação de novos negócios e soluções, algo que não é trivial, sobretudo quando se está frente a um legado pesado, como no caso desta instituição financeira.

No mundo de hoje, com as tecnologias disponíveis e a digitalização, é vital que se tenha capacidade de perseguir incessantemente o novo. “O Cubo é um meio pelo qual conseguimos experimentar de forma rápida. A estrutura que erguemos tem sido de capaz de criar uma conexão entre as startups e as áreas internas”, nota Lineu Andrade, diretor de Tecnologia do Itaú Unibanco e responsável pelo hub.

Galgando um degrau a mais, o Cubo ajudou decisivamente o banco no processo de mudança cultural. Mais de dois mil colaboradores, quase todos eles executivos, passaram pelo espaço de alguma forma, seja através de treinamentos, seja realizando alguma experiência específica.

Esta mobilização ajudou a promover uma reviravolta na maneira de desenvolver soluções para os clientes. Começou-se a trabalhar de modo mais integrado com as áreas de negócios, empregando metodologias ágeis. Foram assim montadas equipes multidisciplinares, agregando pessoal de engenharia, arquitetura, qualidade, testes, segurança e negócios, atuando todos com um propósito bem definido.

“Os processos ágeis, o conceito de MVP, a filosofia Lean, entre outros recursos, ajudaram a focar naquilo que de fato gera valor para os clientes, tirando os penduricalhos. O Cubo teve enorme importância neste trabalho cultural”, reafirma Andrade.

Paralelamente, foi também implementada na instituição uma política de estímulo ao intraempreendedorismo. Com esta alternativa, os colaboradores podem apresentar sugestões para aprimorar o atendimento aos correntistas, dando vazão a boas ideias.

Um exemplo de solução desenhada sob este figurino é o Teclado Itaú, que já foi habilitado por um milhão de clientes. Ele permite executar transferências a partir do aplicativo que o cliente esteja empregando, como e-mail, Messenger, WhatsApp, etc, enviando o comprovante para o destinatário.

“Pelo empreendedorismo interno, viabilizamos esta mega-inovação que melhora muito a experiência do cliente. Uma equipe sugeriu a solução, que consideramos uma ótima sacada que merecia receber investimentos para ser desenvolvida”, pormenoriza Andrade, acrescentando que este tipo de iniciativa é bastante apoiado pelo banco: “Nosso propósito é estimular o poder de transformação das pessoas. Temos vários programas nesse sentido”.

Novos comportamentos

A disseminação das mudanças, na verdade, está influenciando até as posturas e comportamentos cotidianos dos colaboradores, tornando-os mais informais e descontraídos. Foi com este escopo, aliás, que foi criado internamente o programa “Vou Como Sou”, que visa obter o melhor de cada pessoa, do jeito que ela é.

Assim, nos centros administrativos, hoje é muito comum, por exemplo, encontrar pessoas vestindo bermudas. Praticamente foi abolido o uso de terno e gravata no dia a dia. E há quem vá ao trabalho com os cabelos pintados de vermelho. Ou seja, hábitos que até alguns anos atrás seriam inimagináveis em uma instituição financeira tradicional.

“Temos mais de 100 mil colaboradores e uma marca importante do banco é a diversidade que temos, assim como é diversa a base de clientes. Temos de tudo um pouco, como ocorre com os correntistas”, descreve o executivo.

Na mesma linha, os ambientes nas áreas de TI e de negócios da organização mudaram sobremaneira, ficando muito próximos do que se vê no Cubo. No centro de tecnologia, por exemplo, estão à disposição salas de música, de leitura e meditação.

A premissa é que, se um funcionário desfruta de um ambiente agradável, ele se torna mais engajado, produtivo e satisfeito. “Começamos este processo de mudanças lá atrás e hoje estamos colhendo os resultados”, afirma o entrevistado.

Os novos tempos também introduziram aperfeiçoamentos nas contratações do banco, que normalmente são complexas. “O processo tradicional de contratação é muito sólido e robusto, mas não se aplica ao pessoal de startups, que é muito jovem. Mudamos em 90% os procedimentos voltados para as entrantes. Agora, uma startup que é aprovada pelo Cubo já pode vender produtos e serviços para o Itaú”, informa ele.

Em um cenário pautado por um “boom” nacional e global no empreendedorismo com viés tecnológico, o Cubo desponta como uma das pedras angulares da estratégia do Itaú de vincular a marca do banco às ideias de vanguardismo tecnológico e de reinvenção dos negócios.

Pelos resultados obtidos até o momento, a perspectiva é de que iniciativas como esta continuem sendo replicadas aqui e ali, contribuindo decisivamente para que as startups sigam protagonizando a inovação em várias indústrias.

 

 

 

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