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Até onde o empreendedor pode ir se tudo der errado?

Flávio Pripas, diretor e responsável pelo Cubo Flávio Pripas, diretor e responsável pelo Cubo

Flávio Pripas, responsável pelo Cubo, explica o que é affordable loss ou perda suportável

Até onde o empreendedor pode ir se tudo der errado?  Quando trabalhamos em uma empresa, sempre buscamos o sucesso, porém é preciso levar em conta também os malogros. "Se pensarmos que a inovação é disruptiva, é preciso planejar bastante o fracasso. Vemos isso acontecendo bastante em um ambiente como o nosso", conta Flávio Pripas, diretor e responsável pelo Cubo, núcleo de Fomento ao Empreendedorismo similar ao Google Campus. O executivo foi convidado a liderar o projeto do Cubo logo após criar duas empresas, que nasceram por sua iniciativa.  (Assista à palestra de Pripas neste link http://youtu.be/K9tTgQNXt1U.

Antes de ocupar esta posição, Pripas era um executivo que trabalhava no mercado corporativo, passando em 2005 pela diretoria de tecnologia no JP Morgan, e em 2008 pelo Crédit Suisse. Pripas tinha casa, carro e uma vida confortável. Foi quando resolveu jogar tudo para o alto e ser dono de uma rede social de moda, com o dinheiro que tinha guardado na carreira de executivo. Esta experiência, relata ele, acabaria sendo essencial em sua trajetória.  

Se ele não tivesse aceitado tolerar a perda advinda desta decisão, talvez não se desse o direito de tentar tantas coisas diferentes. "Essa perda suportável vai mudando ao longo do tempo. Depois que a empresa começou a fazer receita, o que era perda suportável virou o caixa da empresa, que ficou no breaking even cerca de 10 meses depois. Depois, a perda suportável virou o dinheiro do investidor, e assim sucessivamente", explica. 

Mais detalhadamente, a primeira das empresas surgiu quando a esposa dele e a de um amigo do banco, Renato Steinbert, manifestaram a vontade de abrir uma loja de roupas. Decidiram fazer um negócio na internet para elas cuidarem. Ficaram quatro finais de semana desenvolvendo um site onde o próprio usuário podia gerar conteúdo, o Fashion.me.  Tratava-se de um catálogo pelo qual o consumidor podia combinar as peças e formar um look. Clicando em cada peça, ela era mandada para o site onde a aquisição poderia ser feita. 

"Na época, não se falava em rede social. O Facebook entrou em 2009. Acabamos criando, sem querer, uma rede social de moda que cresceu exponencialmente", relembra. Ela entrou no ar em agosto de 2008. No começo de 2009, o site atraía 30 mil pessoas novas por dia. À época, Flávio e Renato trabalhavam no Crédit Suisse e tiveram que tomar uma decisão. Na condição de programadores que fizeram MBA, eles sabiam como fazer um plano de negócios com visão, missão, valores, estratégia, produto, plano de marketing, metas e plano de implementação.  

Em termos de cenário para os empreendedores, o fato é que a maturidade do ecossistema de empresas no Brasil mudou bastante nos últimos 17 anos. No começo dos anos 2000, não existia estrutura de apoio para quem quisesse abrir um novo negócio, desafiar o status quo e fazer algo diferente. 

Hoje, em contraste, existem comunidades que se reúnem todos os meses para discutir inovação, empreendedorismo, novos negócios e formas de se trabalhar. Flávio, por exemplo, ajudou a fundar o Brasil Innovators em 2010, encontro mensal com 200 pessoas que já passou da 80ª edição. Assim, aceleradoras levam o investidor inicial para um novo patamar, com a ajuda de advogados que concentram expertise nestas áreas. Além disso, “há mentoria, educação e empreendedorismo nas faculdades, coisa não falada há 10 anos", afirma.  

Ao mesmo tempo, serviços na nuvem facilitam a implementação dos projetos. E os investidores ajudam a criar novos casos de sucesso. Entretanto, “mesmo com toda essa estrutura de apoio, faltava algo no mercado brasileiro. Vários estudos sobre inovação acabam convergindo para cinco variáveis que fazem esse ambiente florescer: acesso à talento, capital, cultura empreendedora, ambiente regulatório e densidade", acrescenta Pripas.  

Segundo ele, ainda faltava no Brasil a densidade ou um pólo onde se reunissem pessoas falando sobre inovação, empreendedorismo, novas formas de trabalhar e de enxergar o mundo. O Cubo, assim como o Campus, veio para preencher essa lacuna de densidade. Nestes locais, pode-se ir a qualquer hora do dia e lá estarão pessoas que querem encontrar novas alternativas e maneiras de desafiar o status quo. "O que entregamos em um lugar como esse é o serendipity, o mesmo que encontros não marcados ou oportunidades que surgem quando menos se espera", declara. 

O Cubo é uma associação sem fins lucrativos, fundada pelo Banco Itaú e pela Redpoint Eventures, com apoio de empresas como Accenture, Ambev, Foresse, Microsoft, Mastercard, Tim, Cisco, Gerdau, Focus, Iugu, AES Ergos e Saint-Gobain. É um local onde circulam diariamente 600 pessoas, com 250 residentes, 58 companhias, seis andares, terraço, auditório e café.  

Cases de sucesso 

Quem cria uma startup enxerga uma oportunidade: resolve um problema real do mundo real com uma solução e potencial de escala. Foi o caso de Paulo de Tarso, que possui uma startup residente no Cubo. Foi diretor de crédito e cobrança no Banco Santander, trabalhando há mais de 20 anos nessa área. "Da população brasileira ativa, 60% está devendo há mais de 90 dias. Trata-se de um problema social. A cobrança é feita de maneira ostensiva, arcaica e que incomoda. Já recebi 30 ligações de cobrador para pagar minha dívida. Por isso, o Paulo pensou em usar a tecnologia para resolver isso de uma maneira diferente. Pediu as contas e abriu a Kitado", resume Pripas. 

No LinkedIn, se a pessoa exibe um status de transição na carreira, quer dizer que ela está desempregada e não consegue pagar a dívida dela. Se ela muda o status no LinkedIn para empregada, quer dizer que daqui a três meses ela vai começar a estar apta para quitar os débitos. A Kitado só vai entrar em contato dentro de três meses e depois de a pessoa publicar uma foto ou dar algum sinal de que começa a voltar a ter capacidade de pagamento. "Com isso, a empresa não faz cobrança ostensiva, não humilha a pessoa. As pessoas querem pagar. A Kitado só entra em contato na hora certa. Ele está conseguindo de 16% a 20% mais performance do que agências tradicionais de cobrança", detalha o executivo. 

Outro caso é de Rui Miadaira, criador do CarreiraBeauty.com. Com carreira no mercado corporativo, passagem em banco, Harvard e MBA, Rui começou a ganhar dinheiro com a esposa e a cunhada, que queriam trabalhar com spas, tendo ele aberto cinco estabelecimentos. Depois do quinto, ele não sabia mais onde encontrar os profissionais de beleza. Apesar de o Brasil ser um dos maiores mercados do mundo na área, não havia um site onde se pudesse contratar esse tipo de profissional. "O CarreiraBeauty hoje é o LinkedIn do mercado de beleza", resume Pripas.  

Outro exemplo vem de Marco Fisbhen, professor de cursinho que dava aulas de física e matemática. Ele resolveu gravar as aulas e ampliar sua audiência na internet. No Enem de 2016, o Descomplica deu uma aula ao vivo para 1,6 milhão de alunos ao mesmo tempo. A audiência do site Descomplica chega a 9 milhões de alunos.  

Por sua vez, Thiago Fair começou vendendo artesanato pela internet. Construiu um site de ecommerce, que não decolou. Resolveu colocar o negócio em market places: Mercado Livre, OLX, Submarino, Extra, Magazine Luiza, Wallmart. Com isso, começou a vender muito mais. Thiago tinha uma peça de artesanato anunciada em 10 sites. Se colocasse no Mercado Livre, teria que entrar nos outros nove sites e baixar aquele estoque. Para resolver isso, criou um sistema para distribuir a propaganda nos sites. Assim, quando vendia em um deles, recebia o pedido e baixava o estoque dos outros porque não tinha mais aquela peça à disposição. Thiago começou a divulgar o sistema e, hoje em dia, a Olist é uma empresa que cresce mais de 20% ao mês há três anos, vendendo sistemas de gerenciamento de pedidos para quem tem produto para vender em market places.  

Esses empreendedores seguiram o chamado effectuation, termo cunhado por Sarah Sarasvathy, que  fala de perda suportável em um futuro imprevisível.  "É preciso trabalhar com os recursos que se tem na mão e fazer do limão uma limonada", indica Pripas. Assim, a inovação é sustentada por quatro pilares: futuro imprevisível, visão, teste de possibilidades e parcerias. Segundo ele,  empreendedores que pensaram fora da caixa acabaram seguindo a escola de pensamento do effectuation sem saber disso.  

No filme Affordable Loss, um alpinista sai para fazer uma trilha, sofre um acidente, fica com o braço preso em uma rocha e lhe restam duas opções: cortar o braço para escapar ou morrer. "Esse filme ilustra bem o primeiro pilar do effectuation. A única variável da qual o empreendedor tem controle não é o sucesso, e sim o fracasso. Isso é totalmente contra-intuitivo (affordable loss)", destrincha Pripas. 

Enfim, o empreendedor que quer mudar o mundo está fazendo o que nunca ninguém fez antes, não sabendo se aquilo vai dar certo. Não há a mínima garantia. "Ele consegue gerenciar o que vai dar errado, avaliando até onde ele suporta (perda suportável), se o negócio der errado ou se der tudo errado", resume. 

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