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Open Banking enfrenta desafios regulatórios

Guilherme Horn, diretor de Inovação da Accenture Guilherme Horn, diretor de Inovação da Accenture

Mercado europeu registra entraves na regulação e na padronização das APIs. Expectativa é de que o BC brasileiro assimile as lições e assegure uma implantação mais rápida e eficiente no País.

Ao permitir que Fintechs e startups, além de outros perfis de empresas, se interconectem com os bancos, o Open Banking acena com a multiplicação de novos modelos de negócios e fontes de receitas, em favor de todos os participantes. Entretanto, uma série de desafios, ligados à regulação e à padronização, precisam ser transpostos para que este cenário promissor efetivamente se concretize.

Não resta dúvida de que se trata de um movimento irreversível, que cedo ou tarde irá revolucionar o funcionamento do mercado financeiro. Dados armazenados nos bancos poderão ser acessados por seus parceiros – a pedido dos clientes –, o que em tese possibilitará o desenho de produtos melhores e mais baratos para os consumidores finais.

Embora as instituições estabelecidas tenham um certo pé atrás com respeito a esta tendência, a realidade é que a mudança pode lhes proporcionar a chance de auferir receitas não financeiras. Torna-se, portanto, possível participar das vendas de outros serviços não vinculados aos seus core business.

Porém, a fim de que os esforços sejam bem-sucedidos, cabe avaliar cuidadosamente o que está ocorrendo na União Europeia e extrair as devidas lições. Em entrevista para Executivos Financeiros, Guilherme Horn, diretor de Inovação da Accenture, menciona alguns entraves que estão emperrando o deslanche do Open Banking no continente.

De início, afirma ele, o desafio posto é definir exatamente o que será abrangido pelas regras no que concerne ao repasse dos dados bancários. Assim, por exemplo, serão franqueados o lado transacional, o cadastro dos clientes, a movimentação de contas e os saldos? Isto é, será factível acessar registros que sejam realmente sensíveis?

“A depender dos bancos, será aberta a menor quantidade de dados possível. Querem tornar disponíveis apenas informações do tipo taxas cobradas, listas de agências, de produtos, etc, coisas que de alguma forma já são acessíveis hoje”, nota o entrevistado.

Mesmo se presumindo que os dados mais relevantes sejam disponibilizados (ainda que em um segundo momento), há outras etapas espinhosas a enfrentar. A primeira é a padronização técnica, que propiciaria a interconexão entre os diversos players.

A diretiva PSD2 (Second Payment Services Directive), que orienta os trabalhos, não mergulhou a fundo neste quesito, sob o argumento de que esta é uma prerrogativa das instituições.

Padrões próprios de APIs

Desta maneira, cada banco criou seu próprio padrão de API (Application Programming Interface), tornando quase inviável a conexão das startups com múltiplas instituições simultaneamente, como seria desejável.

Horn faz um breve cálculo para situar a complexidade do problema. Em média, haveria 15 APIs por banco, com cada um deles tendo sua própria padronização e seu próprio formato. E cada interface teria três versões: a antiga, a atual e a futura. Multiplicando-se 15 por três, chega-se a um total de 45 APIs.

Quando, por sua vez, se multiplica este montante de 45 APIs pela enorme quantidade de instituições financeiras atuantes na Europa, fica praticamente inviável para qualquer startup lidar com tantos formatos diferentes e diversificar o número de parceiros. “Uma entrante vai conseguir trabalhar, no máximo, com 10 ou 15 bancos. Mais do que isso, vai ser muito difícil”, observa o executivo.

O segundo obstáculo é o da homologação. No Reino Unido, rememora o entrevistado, o órgão regulador criou um grupo de oito instituições que ficou responsável por sistematizar este procedimento. “A questão foi que se concebeu um processo tão complicado e rigoroso que nenhuma startup passou. A anedota que corre é que nem os bancos conseguiriam se quisessem”, comenta Horn. Felizmente, acrescenta ele, os reguladores entenderam o que estava acontecendo e agora estão revendo suas deliberações.

Além do mais, considerando-se o aspecto do sigilo das informações, como se pode garantir que um ambiente é realmente seguro? Por definição, um ambiente tecnológico nunca é 100% protegido quando é aberto. Portanto, torna-se delicado estabelecer o nível de exigência a ser imposto nestes casos.

O especialista da Accenture crê que, no Brasil, o Banco Central está ciente destes percalços. E a expectativa é de que eles sejam levados na devida conta no momento de se formular as regras do jogo, previstas para sair neste ano.

Concentração bancária

O BC, ao fixar as coordenadas, deve ter em mente o grau de concentração bancária no País. Pois existe o risco de surgirem soluções que não beneficiem o mercado como um todo. “Se as startups não conseguirem acessar dados de três dos nossos maiores bancos, perde-se um pouco o sentido da regulação. Este é mais um ponto de atenção”, salienta.

De resto, apontando uma outra influência favorável do Open Banking no contexto brasileiro, Horn pondera que ele pode fortalecer, em certa medida, a tendência de desconcentração bancária, que, por sinal, já se vem materializando de alguns anos para cá.

Outro fator propício a notar no País, conforme o executivo, é que os bancos de médio porte em geral não estão atrasados no encaminhamento desta agenda. Pelo contrário. Há instituições que já galgaram vários degraus evolutivos, como o Votorantim e o BTG Pactual, sem esquecer dos digitais, como o Inter e o Neon.

No que tange à concepção de novos modelos de negócios na esfera do Open Banking, ainda não é possível vislumbrar, no Exterior, uma proposição vencedora nas áreas de investimentos, de crédito, de pagamentos, entre outras. No Brasil, as perspectivas estão mais indefinidas, o que abre um vasto campo de experimentação para as instituições e para as Fintechs.

Seja como for, as associações com startups são um caminho sem volta porque muitas das inovações seguem derivando destes microempreendedores, até mais do que dos próprios bancos. O que pode variar bastante é o tipo de parceria estabelecido.

Assim, grandes hubs de suporte à inovação aberta, como o inovaBra (Bradesco), o Cubo (Itaú e Redpoint eventures) e a Oxigênio (Porto Seguro e Plug and Play), desenvolveram abordagens e estratégias que acabaram por balizar a vertical finanças no País. Na esteira destes ecossistemas, outras instituições também criaram seus próprios programas de apoio.

De seu lado, a indústria de venture capital apresenta forte liquidez, prevendo-se a alocação de muito dinheiro neste ano para o mercado nacional. Os chineses, por exemplo, ao investirem no Nubank e na 99, mostram que estão atentos ao potencial existente, bem como os americanos e europeus.

Pagamentos rápidos

O nicho de meios de pagamento, em especial, pende para uma maior pulverização e deve registrar mudanças expressivas, em decorrência não só do Open Banking, mas também da nova regulamentação incidindo sobre os chamados “fast payments” (pagamentos rápidos ou instantâneos).

“Ela vai ser um marco importante porque vai ensejar uma outra configuração para este mercado, trazendo um novo papel para todos os players: as adquirentes, o peer-to-peer e o varejo, entre outros”, assinala Guilherme Horn.

A perspectiva, complementa ele, é de que se abra uma série de oportunidades para empresas não financeiras, mediante a comercialização de produtos e serviços mais simples e com preços mais baixos para o consumidor, contemplando dois requerimentos: experiência do usuário e segurança da informação.

Mais pormenorizadamente, o BC brasileiro pretende ampliar a oferta de meios de pagamentos disponíveis para a população, reduzindo o uso de dinheiro em espécie. Para tanto, o escopo é incentivar a eletronização dos instrumentos de pagamento de varejo, agilizando as transações e contendo custos, como os advindos da aceitação de cartões de crédito e de débito.

Prevê-se a diversificação de modelos de negócios, eliminando-se os intermediários e aumentando a competição. Cria-se, nesse sentido, um ambiente propício para Fintechs que desenvolvam soluções facilitadoras das transações, tanto para pagadores quanto para recebedores. Além disso, estas startups poderão oferecer serviços agregados, como seguros, crédito, investimentos, conciliação, pagamentos de tributos, entre numerosas possibilidades.

TRANSFORMAÇÃO É DESAFIO CULTURAL, NÃO DE TI

O verdadeiro desafio da transformação digital não se encontra no plano da tecnologia, mas sim no da cultura. Grandes bancos no Exterior, notadamente os americanos, já perceberam este fato e avançam em suas jornadas modernizantes, empurrados pela competição crescente das Fintechs.

Já no Brasil, as instituições tradicionais enxergam os gaps existentes e trabalham para superá-los, constata Guilherme Horn, diretor de Inovação da Accenture. Entretanto, ele julga que os players locais seguem focando muito mais na TI: “Desenvolvem novos aplicativos, melhoram a experiência do usuário, mas a transformação cultural ainda não aconteceu”.

Detalhando sua análise, o entrevistado entende que, nos EUA, os grandes bancos atualmente aceleraram o passo para reagir à concorrência. Se antes eles pagavam para ver o que as startups fariam, de dois anos para cá começaram a injetar polpudas somas no processo transformacional. O JP Morgan, por exemplo, anunciou que investiria US$ 20 bilhões nesta área, com o Citi, o Wells Fargo e o Bank of America também apostando na disrupção.

O Goldman Sachs, a propósito, protagonizou um case que Horn considera bastante ilustrativo. Ele surpreendeu a todos ao lançar uma operação no varejo em cima de uma base tecnológica de ponta. “O Goldman sempre foi elitista, centrado em investimentos. Hoje, ele dispõe da Marcus, plataforma digital voltada para a área varejista, que não deixa nada a desejar na comparação com outras soluções. O banco tem uma cultura muito alinhada com a cultura do mundo digital”.

Serviços financeiros fragmentados

O desafio é significativo porque, nos diversos segmentos da vertical finanças, as transformações seguem em frente. É o caso dos ramos de crédito, de investimentos, de pagamentos e de seguros, entre outros. As instituições se mobilizam, mas as Fintechs não cessam de colocar ofertas atraentes na praça, num momento em que os serviços financeiros estão cada vez mais segregados e fragmentados.

Na Ásia, há uma evolução tecnológica expressiva, movida a inovação, mas ali se verifica uma enorme concentração de mercado nas mãos de dois grandes players. Em contraste, na União Europeia, ocorre forte pulverização, com as Fintechs já sendo bastante relevantes na geração de faturamento.

Outros atores que estão ingressando nesta arena competitiva são as chamadas Big Techs – Facebook, Amazon, Google, entre outras. No entanto, o executivo da Accenture não crê que estes pesos-pesados devam transformar-se em bancos: “Vemos o Facebook fazendo pagamentos, a Amazon emprestando para lojistas. Acho que estas empresas vão continuar nesta linha, ofertando serviços que estejam dentro do escopo da jornada de seus clientes, facilitando a vida deles”.

As Big Techs, prossegue ele, têm em mira outras regiões do globo primeiro, até porque nosso país ostenta uma regulação avançada na seara de serviços financeiros. “É mais natural que as grandes companhias testem mercados mais desregulamentados”, afirma.

Nos EUA, por exemplo, não há legislação específica para os setores de crédito e pagamentos. “Aquelas gigantes vão chegar aqui em algum momento, mas o Brasil não é um local indicado para se fazer pilotos”, analisa Horn.

Definição de banco digital

Em meio a todas as discussões em curso, emerge uma questão que não raro costuma ocasionar controvérsias nesta indústria e tem a ver com o modus operandi dos atores que se movem neste tabuleiro: o que é, enfim, um banco digital?

Para tentar respondê-la, Guilherme Horn faz inicialmente uma distinção entre os conceitos de “go digital” e “be digital”. O primeiro daria conta do processo de migração para o digital, ao passo que o segundo designaria uma organização de fato digital.

“A diferença é muito sutil. De um lado está se falando em ter uma operação digitalizada e de outro ter uma experiência para o cliente digital, de ter uma cultura digital dentro da instituição”, explicita ele.

A juízo do especialista da Accenture, o banco digital é o que mantém um relacionamento digital de ponta a ponta com o cliente. “Ele captura o correntista de forma digital, interage com ele de modo digital e tem um pós-venda digital. Todas as etapas do relacionamento são digitais. E todos os processos são alinhados ao mundo digital”, define.

Neste sentido, quando os bancos tradicionais se autodenominam digitais, eles reportam muito mais uma experiência transacional, usando-se aplicativos para fazer operações. “Pouquíssimos captam clientes de forma digital e pouquíssimos também atendem no pós-venda de maneira digital. A maioria dos players está no meio do caminho", conclui.

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